O Paradoxo Cloverfield: a propaganda enganosa de Abrams

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Gugu Mbatha-Raw é uma cientista em O Paradoxo Cloverfield

Nem sempre a genialidade de uma propaganda sustenta a ineficiência do produto. De maneira inesperada, durante o intervalo do Super Bowl, a valiosa final da liga de futebol americano que foi disputada entre Patriots e Eagles, ficamos sabendo que o Netflix disponibilizaria em seu serviço de streaming mais uma parte da franquia Cloverfield. Foi assim que estreou O Paradoxo Cloverfield, sem alarde, num truque perfeito de J.J. Abrams, o produtor e criador do projeto. Os fãs enlouqueceram porque também foram surpreendidos por essa estreia repentina fora dos cinemas.

Muita gente correu para o Netflix depois do jogo. E muita gente se decepcionou com o que viu, mesmo os seguidores mais fieis. Não só porque o filme é muito ruim, mas porque deixou a impressão de que fomos enganados por J.J. Abrams.

+ Rua Cloverfield, 10: o jogo criado por J.J. Abrams

Será que O Paradoxo Cloverfield não foi lançado direto no Netflix porque a Paramount, a produtora do filme, sentiu que tinha uma bomba nas mãos? Por que mais uma vez, assim como havia ocorrido com Rua Cloverfield, 10, pegaram um roteiro que não havia sido criado para a série e fizeram uma transformação meia-boca para o universo Cloverfield?

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A Forma da Água: uma fantasia bonita, verde e sem graça

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Sally Hawkins em “A Forma da Água”, de Guillermo del Toro

Até entendo que a ideia do mexicano Guillermo del Toro tenha sido, em A Forma da Água, fazer uma homenagem ou desenterrar o cinema de gênero americano, fazendo alusão a filmes de monstro, gângster, aos musicais e melodramas do passado, mas o que resta dessa sacada inicial? Muito pouco!

Assim como La La Land e O Artista, para citar exemplos recentes, desenvolver uma história aos moldes de como elas eram contadas nas primeiras décadas do cinema não garante, por si só, seu êxito. Os críticos e especialistas, em geral, adoram essa artimanha porque eles veneram a indústria do cinema, é claro, mas também ficam felizes como crianças ao encontrar referências a outros filmes escondidas em uma obra. Quando notam, não veem a hora de compartilhar sua sabedoria com seus pares.

+ O filme que atormentou a plateia em Sundance

Para mim, a questão em A Forma da Água é muito simples: o filme não me emocionou. As atuações, mesmo a de Sally Hawkins como a ajudante de limpeza muda que se apaixona por um homem-peixe maltratado em um laboratório, são fracas, carregam com muito custo os personagens nas costas.

Ao sair do cinema, é verdade que vi gente rindo bastante e outras pessoas chorando. Embora tenha visto também espectadores putos da vida, decepcionados por uma trama bobinha que ganhou 13 indicações ao Oscar deste ano.

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O Mastodon é tudo isso mesmo?

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Mastodon: uma surpresa a cada disco

A banda americana Mastodon acaba de ganhar mais um prêmio para incluir em sua coleção, o Grammy de melhor performance de metal pela música Sultan’s Curse, do álbum Emperor of Sand. Foi a quarta indicação do grupo nessa categoria. Há uma reverência galopante entre críticos de música, fãs e jornalistas que sugere a seguinte pergunta: será o Mastodon o principal nome do metal de sua geração?

Fundado entre 1999 e 2000, em Atlanta (EUA), o grupo composto pelos guitarristas  Brent Hinds e Bill Kelliher, o baixista Troy Sanders e o baterista Brann Dailor, que faz uma inovadora mistura de rock progressivo e metal, lançou o primeiro álbum, Remission, em 2002, pela gravadora Relapse Records. O reconhecimento, no entanto, veio com o disco seguinte, Leviathan (2004), o álbum conceito que se inspira nas aventuras narradas pelo escritor Herman Melville na clássica obra do século 19 Moby Dick.

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Esse importante marco na carreira do grupo catapultou-os à posição de principal nome do heavy metal surgido após o ano 2000, conquistando o apreço de várias publicações dedicadas ao gênero. Com sua combinação de brutalidade, letras cantadas por todos os integrantes da banda e arranjos criativos e complexos, Leviathan foi eleito o álbum do ano pelas revistas Kerrang e Terrorizer. Para a Rolling Stone, está entre os melhores álbuns de metal de todos os tempos.

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O filme que deixou todo mundo de cabelo em pé em Sundance

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Cena de “Hereditary”, exibido pela primeira vez em Sundance

O ano mal começou e um filme, exibido neste mês no Festival de Sundance (EUA), já está cotado para a lista dos mais assustadores de 2018. Trata-se de Hereditary, primeiro longa-metragem do jovem americano Ari Aster, diretor de curtas como o polêmico The Strange Things About the Johnsons. Jornalistas que estão fazendo a cobertura do evento andam empolgados com o que viram.

Patrick Ryan, do jornal USA Today, cravou em sua resenha: “é o filme de terror mais insano dos últimos anos”. O site Thrillist, em texto de Dan Jackson, segue a mesma linha, afirmando ser um dos filmes mais perturbadores que foram lançados recentemente. Crítico da Vanity Fair, Richard Lawson disse que “deixou o cinema se sentindo abalado, esgotado e completamente aliviado”.

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Eu ainda não vi o filme — nem há uma data de estreia definida nos EUA –, mas reproduzo a sinopse que foi divulgada no site do festival para dar uma ideia do enredo. A família Graham começa a desvendar seu passado após a morte da reclusa avó. A sombra de sua presença ainda é sentida na casa, especialmente para sua neta Charlei, com quem mantinha uma relação de fascínio. Alguns incidentes abalam a paz da família, e a mãe é obrigada a lidar com uma herança indesejada.

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O livro oculto de Xerxenesky

 

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O escritor gaúcho Antônio Xerxenesky (Foto: Renato Parada)

Antônio Xerxenesky mergulhou fundo no estudo do ocultismo para escrever o livro As Perguntas, ótimo lançamento de 2017 que, assim como Neve Negra, de Santiago Nazarian, dá fôlego a um gênero moribundo no mercado editorial brasileiro, o terror. Com a ajuda do amigo e mentor Daniel Pellizzari, ele pesquisou textos de Aleister Crowley, Éliphas Lévi, Mircea Eliade e outros tratados sobre paganismo para dar corpo à história de Alina, uma doutoranda em religião que sofre com a visão de sombras e vultos. Para pagar as contas, ela trabalha, quase no piloto automático, como editora de vídeos institucionais em um escritório na região da Avenida Paulista, em São Paulo.

Em entrevista ao blog, Xerxenesky conta que sempre sofreu do mesmo mal de Alina: via, a contragosto, resíduos de sonhos, imagens e sombras. “Essa foi a inspiração autobiográfica do livro. Mas, ao contrário dela, não cogito que isso é algo sobrenatural”, diz o autor, que nasceu em Porto Alegre e mora na capital paulista. As Perguntas é seu terceiro romance. Antes, escreveu Areia nos Dentes (2010) e F (2014), finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, além de dois livros de contos. Ao flertar com gêneros populares, como a ficção científica e o terror, Xerxenesky assume o risco de ser um intruso na festa da literatura brasileira, onde o realismo e o academicismo predominam.

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“A literatura brasileira, de modo geral, quer ser bem vista, quer ganhar prêmios, ser matéria de teses de doutorado, e para isso é preciso trajar um terno completo. O terror nunca usa terno completo. O terror é a roupa esfarrapada. O realismo, um vício da literatura brasileira, pode se tornar uma prisão, e todos meus livros foram tentativas de fugir disso”, afirma.

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“As Perguntas”: terceiro romance de Xerxenesky

No repertório de Xerxenesky, formado em Letras e mestre em Literatura Comparada, cabem tanto filmes italianos de terror dos anos 1970, de diretores como Lucio Fulci e Dario Argento, quanto músicas de bandas de metal experimental, a exemplo de Sunn 0))) e Agalloch. Não nega que cultiva um “fetiche pelas dark arts”. Embora não tenha medo de fantasmas, preocupa-se com a infelicidade de sua geração, que passou dos 30 anos, continua insatisfeita e tenta resolver tudo à base de remédios, e teme o surgimento de um fascismo cultural no Brasil.

Leia a seguir a entrevista que fizemos com o escritor.

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2017: o terror em alta na bilheteria

2017 foi um ano e tanto para os filmes de terror. Segundo reportagem do New York Times, publicada em outubro do ano passado, foi o melhor ano na história do gênero, levando-se em conta a bilheteria e o montante arrecadado nos EUA. Dois fenômenos de público (e crítica, em geral) puxaram a fila: Corra, filme de Jordan Peele que trata de racismo e intolerância, e IT: A Coisa, adaptado da obra de Stephen King.

Apesar do orçamento apertado, o primeiro arrecadou impressionantes 175 milhões de dólares nos EUA, aparecendo, de acordo com a Box Office Mojo, como o 16º filme de maior bilheteria no país. Já IT acaba de entrar de vez para a história: alcançou a marca de 327 milhões de dólares, tornando-se o filme de terror de maior bilheteria de todos os tempos. Produzido pela Warner, o longa terminou o ano na sexta posição entre os filmes mais rentáveis do ano, batendo blockbusters como Meu Malvado Favorito 3, Logan e Thor.

+ Leia a crítica de IT: A Coisa

Somando a bilheteria de todos os lançamentos de terror de 2017, chegamos a um número espetacular: mais de 700 milhões de dólares no mercado doméstico americano, incluindo nessa lista outros títulos que também fizeram bonito, como Fragmentado, de M. Night Shyamalan (138 milhões de dólares), e Annabelle 2: A Criação do Mal (102 milhões).

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Elder e a metamorfose do rock

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O trio americano Elder: entre os melhores discos de 2017

Um dos álbuns de rock/metal mais originais e marcantes lançados neste ano, Reflections of a Floating World, do Elder, aponta para novos caminhos do gênero. O trio de Boston, que já havia despertado a atenção com o disco anterior, Lore (2015), mais uma vez surpreende ao experimentar novas fórmulas, mesmo quando mistura referências do passado, engrossando o caldo sonoro com rock progressivo, doom metal e muita densidade psicodélica. Nos faz voltar aos anos 1970, mas vai além disso.

+ O rock raiz do Greta Van Fleet

Quase todas as músicas de Reflections (são seis, no total) têm mais de 10 minutos. Isso quer dizer que não se preocupam em cumprir uma estrutura básica. É um voo livre, com letras enxutas — em geral, falam sobre um mundo decadente, de desilusão e falsidade –, riffs pesados, quebras de ritmo constantes e uma atmosfera mística, como se estivéssemos viajando por um mundo desconhecido. Sanctuary, a faixa de abertura, desenvolve-se como aventura épica, terminando com a mensagem: “We walk the land without a choice, screaming as though we have a voice” (em tradução livre, “caminhamos pela terra sem ter escolha, gritando como se tivéssemos uma voz”).

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O rock raiz do Greta Van Fleet

Greta Van Fleet - 2017
Greta Van Fleet: rock raiz aos 20 e poucos anos

Quando vi o primeiro vídeo do Greta Van Fleet no YouTube, fiquei espantado (no bom sentido da palavra). Aquele vocalista com cara de moleque, de 20 e poucos anos, de chinelinho e roupa despojada, parecida com aquela calça surrada que usamos para ir dormir, de repente aparece e solta um “oooooohhhhhh” à la Robert Plant tão potente que chega a arrepiar a espinha. Aí ele solta um sorriso de canto de boca, como quem tem noção do que está causando, enquanto um riff de guitarra dá o tom da canção Highway Tune. Puta que o pariu, os moleques são bons mesmo!

+ Neve Negra é o novo livro de Santiago Nazarian

Não ouviu falar deles ainda? Pois garanto que você ouvirá bastante. Em 2012, três irmãos — Josh Kiszka (vocal), Jake Kiszka (guitarra) e Sam Kiszka (baixo) — se juntaram na pequena cidade de Frankenmuth, no Michigan, de pouco mais de 5 mil habitantes, para formar o Greta Van Fleet, a banda de rock mais incensada do momento. Com o baterista Danny Wagner, o trio lançou neste mês o primeiro trabalho, From the Fires, depois de chamar a atenção em abril com o EP Black Smoke Rising.

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