O novo Halloween ecoa o clássico de 1978

Halloween - Michael Myers
O assassino em série Michael Myers em Halloween

Quando era moleque, eu adorava ver o Michael Myers em ação nos filmes da franquia Halloween. O assassino impiedoso de jovens babás, que veste uma máscara branca e está sempre com uma faca nas mãos, era diferente de seus concorrentes na época, sobretudo do Jason Voorhees, de Sexta-Feira 13, e de Freddy Krueger, de A Hora do Pesadelo.

Ele não corre para capturar suas vítimas, não fala, ou seja, não precisa explicar suas ações para a plateia, e não aparece à exaustão na tela. Tudo isso contribui para o clima de suspense e para seu ar sinistro de matador incontrolável. Além de ter, como diz o psiquiatra Dr. Loomis, “os olhos do demônio”.

+ As máscaras assustadoras que fizeram história no cinema

Com 12 e 13 anos, eu morria de medo com a possibilidade de dar de frente com um psicopata desse tipo no meu quarto escuro, antes de ir dormir. Nutria aquela sensação gostosa de ver filmes de terror: medo e fascinação ao mesmo tempo, o desafio de enfrentar meus temores.

Hoje, tenho outro tipo de fascínio por filmes de terror, é claro. Não acordo mais à noite assustado procurando o interruptor. Mas continuo me divertindo — e estudando o gênero — graças a personagens como o Michael Myers.

Resolvi, então, ir ao cinema com minha esposa (que foi praticamente obrigada a gostar de filmes de terror) para assistir ao novo Halloween, lançado 40 anos depois do primeiro. Fui animado com o que estava ouvindo sobre essa sequência e desconfiado por ter visto um monte de bobagem, depois de 1978, que usou e maculou a reputação da franquia.

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Nicole Kidman aparece irreconhecível no filme Destroyer

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Nicole Kidman em cena de Destroyer: atormentada com o passado

Depois de ser exibido em estreia mundial no Telluride Film Festival, no Colorado (EUA), o filme “Destroyer”, novo thriller da diretora Karyn Kusama, causou um alvoroço e tanto no público e nos críticos devido à aparência irreconhecível e à atuação tresloucada e explosiva de Nicole Kidman. Ela interpreta Erin Bell, uma detetive em Los Angeles às voltas com o passado sombrio ao se envolver novamente com o líder de uma gangue com quem teve de lidar em um caso antigo.

Duas linhas narrativas correm simultaneamente no roteiro escrito por Phil Hay e Matt Manfredi: acompanhamos em flashbacks a jovem policial atuando em um caso desastroso em parceria com o FBI e o momento presente, no qual Erin demonstra raiva e sede de vingança desde a primeira cena do filme. Aos poucos, ao juntar as histórias, entendemos seus motivos.

+ Hitchcock no MIS: uma mostra sem conteúdo

O trailer divulgado nesta semana (veja abaixo) dá um gostinho do que veremos nos cinemas em dezembro: um retrato obscuro de uma personagem que foi engolida pela loucura e pela raiva. Não é a primeira vez que a diretora Kusama transforma uma atriz em cena: no filme “Boa de Briga”, a atriz Michelle Rodriguez também come o pão que o diabo amassou em uma atuação espetacular.

Alguns críticos apontaram o papel de Kidman em “Destroyer” como um dos mais perturbadores e marcantes de sua carreira.

Hitchcock no MIS: uma mostra sem conteúdo

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Exposição Hitchcock: Bastidores do Suspense (MIS/Divulgação)

Aproveitei o feriado de 7 de setembro, quando a cidade de São Paulo fica menos travada e mais habitável, para ver a exposição Alfred Hitchcock: Bastidores do Suspense no Museu da Imagem e do Som (MIS).

Por ser fã desde moleque do diretor inglês, minha expectativa era descobrir coisas novas sobre a carreira dele, assistir a trechos raros de filmes e entrevistas, ou seja, aprender algo que eu ainda não tinha conhecimento. Não foi nada disso. Fiquei entediado e decepcionado com a falta de criatividade da montagem da exposição!

+ 5 cenas antológicas do cinema de terror

O primeiro engano foi criar um caminho cronológico, comportadinho e repetitivo. Quem entra na exposição vai seguindo por inúmeras salas idênticas com paredes de madeira, cada uma dedicada a um filme do cineasta. Antes de entrar, tem um resumo da história, fotos de bastidores, cartazes da obra em diversos idiomas e, lá dentro da sala, TVs exibindo trechos do filme. Isso se repete à exaustão.

Se a ideia foi criar um labirinto com corredores apertados, reproduzindo aquelas casas mal-assombradas em parques de diversão, o efeito não deu certo. Como as mostras do MIS recebem muita gente, estão sempre lotadas, o espaço reduzido dificultou demais a circulação.

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Hereditário: o melhor terror do ano?

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Toni Collette em “Hereditário” (Divulgação)

Muito tem sido dito sobre Hereditário. Já falaram do filme como “o novo Exorcista”, “o mais aterrorizante dos últimos anos” e por aí vai. Até eu, confesso, fiquei entusiasmado com o burburinho em torno da obra e publiquei um post aqui no momento em que ele foi exibido no Festival de Sundance. É tudo isso mesmo?

Não, não é; mas sim, é um ótimo filme de terror.

Não é inovador a ponto de estabelecer um marco na história do gênero (se bem que só saberemos disso alguns anos mais adiante), mas é tão bem dirigido, interpretado e executado que justifica seu impacto entre os críticos. Repete alguns temas recorrentes do gênero — como luto, espiritismo, possessão demoníaca — mas aborda cada um deles com um toque original. Me interessou mais a hora inicial, de terror slow burn, em que um drama familiar macabro te deixa completamente tenso e curioso, do que o desfecho apoteótico.

+ Cloverfield: a propaganda enganosa de Abrams

A partir de agora, pode haver um outro spoiler.

Ari Aster é um diretor de 31 anos, com inexpressivos curtas-metragens na bagagem, que parece filmar Hereditário com a mão de um veterano. Extrai o melhor dos atores, cadencia o ritmo do filme com habilidade e é preciso nos movimentos de câmera e enquadramentos. Os zooms vagarosos e os planos trabalhados com o esmero de um artista meticuloso (assim como é o trabalho de construção de maquetes da protagonista da trama, Annie) dão um tom de arte ao resultado.

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Drama familiar com toques sobrenaturais

Se tem uma coisa que vale a pena você deixar a sua casa e ir ao cinema é a atuação estupenda da atriz australiana Toni Collette no papel de Annie. Ela já foi indicada ao Oscar na categoria de atriz coadjuvante por O Sexto Sentido (1999) e merece mais uma chance por Hereditário. Annie é casada com Steve (Gabriel Byrne) e tem dois filhos: a introvertida e macabra Charlie (Milly Shapiro) e o indiferente e blasé Peter (Alex Wolff). O filme começa com a morte e o funeral da mãe de Annie, uma matriarca cheia de segredos que nutria um carinho especial por Charlie. Em seu discurso a familiares, Annie deixa clara a frieza do relacionamento com sua mãe. Charlie, que adora comer barras de chocolate e desenhar figuras sinistras no caderno, é a que mais sente a perda da avó. Ela pergunta para a mãe: “E agora, quem vai cuidar de mim?”

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Metal brasuca no Sesc Belenzinho

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Lacerated and Carbonized no Sesc Belenzinho (Divulgação)

Já faz um tempo que me chama a atenção a programação dedicada ao heavy metal nacional do Sesc Belenzinho, na zona leste de São Paulo. Não é algo comum de se ver . O Sesc, em geral, prefere dar espaço à MPB, ao samba, às vezes a uma banda indie brasileira, mas o metal, como acontece no resto do mercado, é ignorado. Resolvi ir mais a fundo e descobrir quem estava por trás dessa elogiável iniciativa.

O projeto, criado em 2014 pelo Núcleo de Música e Artes Cênicas do Sesc Belenzinho, se chama Música Extrema e já pôs no palco da unidade localizada no bairro de Belém mais de 100 bandas de metal, punk e hardcore nacional, como Ratos do Porão, Genocídio, Angra, Krisiun, Holocausto e Pupilas Dilatadas, entre outras. Conversei com o Sandro Eduardo, um dos curadores do programa, que explicou por que ele nasceu: “O projeto nasce da necessidade da democratização da circulação de projetos artísticos na cidade”.

+ Ghost bota os headbangers para dançar

Apesar de eventualmente circular pelos palcos do Sesc alguns grupos de punk e rock, o Música Extrema tem foco exclusivo no heavy metal nacional. Oferece um espaço com ótima estrutura e preços acessíveis a bandas que ralam para pagar as contas e sobreviver na indústria da música. Isso é muito legal!

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Ghost bota os headbangers para dançar com Prequelle

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Ghost: novo álbum e nova identidade

O novo álbum do Ghost, Prequelle, está menos litúrgico e mais pop. Isso pode ser bom ou ruim, depende da perspectiva de cada fã. Continua teatral, como os discos anteriores, embora seja mais dançante. Pode ser considerado um passo adiante na carreira da banda sueca ou um passo para trás. Uma coisa, no entanto, é certa: o Ghost deixou as trevas de lado — ou pelo menos amenizou o tom — e parece trilhar sem medo o caminho do estrelato.

Tobias Forge (agora já sabemos a identidade de quem se escondia por trás de personagens como Papa Emeritus I, II e III) e sua trupe estão rumo a se tornar uma grande banda de arena, daquelas que tocam em rádio e se apresentam em estádios. A receita foi feita sob medida. Prequelle soa mais como uma mistura de Kiss, Mercyful Fate e Marilyn Manson, e menos como bandas obscuras de black metal. É rock mascarado para ser consumido pela massa, muito bem embalado pela indústria pop.

+ Ghost: entre o papa e o Mr. M

E não há nenhum mal nisso. Vamos lembrar do seguinte: nos anos 1970 e 80, Los Angeles virou o reduto de grupos de glam metal, como Mötley Crüe, Ratt e Twisted Sister, que se enfeitavam com maquiagens, roupas brilhantes, adereços chamativos e botas gigantes para cantar sobre farras com mulheres, drogas e palavras de ordem contra o status quo, aproveitando o lado mais selvagem e purpurinado de Hollywood.

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Prequelle: mais pop e menos litúrgico

O próprio Forge não esconde a inspiração que vem dos anos 1980. Sem dúvida, Prequelle  soa como metal old school, de voz limpa, baixo marcante, elementos eletrônicos e refrões pegajosos. É para ouvir e sair cantando. Rats, por exemplo, música que fala sobre a Peste Negra ao mesmo tempo em que associa o bicho asqueroso a políticos corruptos, poderia muito bem tocar no horário nobre da MTV.

Há também baladas (See the Light e Life Eternal) e rock de pista, como Dance Macabre, uma irresistível canção que vai fazer até o headbanger mais mal-encarado dar uma requebrada na rodinha. O tom solene e mais vagaroso, que lembrava a celebração de uma missa, deu lugar a uma festa animada do demo.

+ O Mastodon é tudo isso mesmo?

Forge é um artista inteligente. Desde jovem — influenciado por sua mãe, uma galerista que levava o filho para apreciar obras sacras nas igrejas católicas da Suécia, e por seu irmão, que lhe apresentou ao rock e ao metal –, ele demonstrou interesse por filmes de terror e bandas de doom metal, como Saint Vitus e Candlemass.

Percebeu como podia explorar esse universo dark e incorporar elementos misteriosos em torno de sua própria banda, flertando sempre com a fama. Assim, manteve sua identidade sob sigilo durante anos e incorporou personagens macabros para atrair a curiosidade de fãs que começavam a se multiplicar pelo mundo. Forge continua vestindo-se como um papa das trevas (agora apresenta-se como o Cardinal Copia) e encenando o fim dos tempos cheio de pompa.

É divertido, estranho e meio cafona ao mesmo tempo!

Mais uma obra-conceito do BTBAM

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Cada álbum lançado pelo Between the Buried and Me é uma poção mágica difícil de decifrar, mas que, depois de um tempo ouvindo com atenção, mostra seu encanto. O mistério não está somente no som intricado, com diferentes camadas de rock progressivo, death metal, jazz, mas também nas letras profundas. Trabalho que sucede o álbum Coma Ecliptic, de 2015, Automata I é a primeira parte de uma obra dupla, cujo segundo ato está programado para vir a público em julho deste ano. Um disco conceito que narra um universo à la Truman Show, no qual uma vítima tem sua história e seus sonhos roubados por uma indústria do entretenimento. A guerra ética entre privacidade e audiência se instala.

Nascida em 2000, a banda da Carolina do Norte (EUA) tornou-se um nome fora da curva no cenário do metal. Nem sei bem se dá para dizer que estamos falando de uma banda de metal. Quando ouço o som dos caras, penso na estrutura quebrada do Dream Theater e da fase mais recente do Opeth, embora o vocal de Tommy Giles Rogers Jr., em certos momentos, mostre inspirações do death metal de grupos como At The Gates (que, aliás, também acaba de lançar novo trabalho). Em outros trechos, a segunda voz limpa do guitarrista Paul Waggoner soa como Pink Floyd, aproximando-se do rock progressivo.

+ Elder e a metamorfose do rock

Automata I é um grande álbum, pesado e melódico ao mesmo tempo. Mas, como disse, é preciso tempo e dedicação para ouvir e reouvir as seis faixas. Condemned to the Gallows, a música que abre o disco, é lenta, depois rápida, depois suja, depois limpa… Como a letra indica, estamos, afinal, no meio de um sonho, em um ambiente lunático, psicodélico, dominado pela tecnologia e por ruídos sonoros de sintetizadores. Millions pode ser encarada como uma boa música de divulgação do álbum, com estrutura menos complexa e um refrão que fica na cabeça.

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Um filme que exige silêncio absoluto da plateia

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Emily Blunt e Millicent Simmonds em cena de “Um Lugar Silencioso”

Um Lugar Silencioso é um filme que, ao exigir silêncio de seus personagens, acaba provocando uma curiosa sensação dentro da sala de cinema: a plateia também sente-se obrigada a se manter calada durante toda a projeção, um momento raro em um mundo cada vez mais ruidoso. Essa é a grande sacada de John Krasinski, que assina a direção e é um dos atores do filme. Isso não quer dizer, entretanto, que se trata de uma obra tão inovadora assim — a concepção, de fato, é, mas o desenvolvimento do enredo, nem tanto.

Na sala lotada em que eu assisti a Um Lugar Silencioso, em um shopping na capital paulista, todos pareciam fiscalizar qualquer barulho e se cuidavam na hora de cochichar com o amigo ou a amiga, de cruzar as pernas para não ranger a poltrona e no momento de enfiar a mão no saco de pipoca (também quando dosavam o movimento do maxilar ao devorar o milho). É um feito e tanto de Krasinski impor silêncio à plateia sem ter que soltar o famoso “psiu”. Se pensarmos em um sentido ainda mais amplo, controlar os ruídos durante uma hora e meia é um exercício quase budista, de introspecção, de atenção plena e mente suspensa.

+ Cloverfield: a propaganda enganosa de J.J.Abrams

Bom, mas como Krasinski conseguiu isso? Um Lugar Silencioso mostra como uma família tenta sobreviver em uma região controlada por monstros que devoram seres humanos quando notam qualquer tipo de barulho, seja a voz mais alta de alguém, seja o barulho de um sapato em contato com o piso de madeira. Essas criaturas que parecem ter saído da franquia Alien têm uma audição muitíssimo apurada, ou seja, qualquer pum pode ser fatal.

É um filme pequeno, com poucos personagens e ambientado, em sua maior parte, em uma única locação. Krasinski (mais conhecido pela série The Office) é o pai que faz de tudo para proteger os filhos nesse mundo pós-apocalipse, inclusive montando um bunker na casa da família, onde faz pesquisas de sobrevivência em situações-limite. No papel da mãe está Emily Blunt, que dá corpo ao filme com ótima atuação, dramática e aflitiva na medida certa. Eles são os pais de Regan (Millicent Simmonds), Marcus (Noah Jupe) e Beau (Cade Woodward).

Imagine que em um ambiente onde o ruído pode ser mortal é preciso andar descalço o tempo todo, falar em linguagem de sinais e ouvir música sempre com fones de ouvido.

+ O filme que deixou todo mundo de cabelo em pé em Sundance

Apesar de ser comercializado como um filme de terror, comparado ao recente Corra! (sinceramente, não entendi bem o motivo), é uma obra que se encaixa mais como um suspense, no qual a tensão e a aflição tomam conta da sala. Como é de se esperar, os diálogos são escassos e, descobrimos após a projeção, que o silêncio também pode ser perturbador e incômodo. Os barulhos da plateia mexendo no saco de pipoca ou sugando o refrigerante até a última gota tomam proporções enormes, enquanto a família Abbott, no filme, procura abafar os movimentos e afastar a ameaça.

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