As bruxas existem? E o que elas querem da vida?

Trial of George Jacobs, de Thomkins H. Matteson, retrata o julgamento de Salem

O título acima é uma das primeiras perguntas que os historiadores Jeffrey Russell e Brooks Alexander fazem no livro História da Bruxaria, da editora Aleph. Não é uma questão fácil de responder. Se usarmos apenas o aparato racional e científico, fica difícil acreditar que sim. Por outro lado, se a bruxaria passa a ser encarada como religião, assim como o cristianismo, aceitamos que elas existem.

O problema vem da própria definição do que é uma bruxa ou bruxo. Os autores defendem que há uma grande confusão em torno do assunto. A primeira imagem que vem à nossa mente é a figura da velhinha, com uma verruga na ponta do nariz, que sai voando por aí montada em uma vassoura. Filmes como A Branca de Neve e O Mágico de Oz ajudaram a estigmatizar essa imagem.

Outro engano é pensar que a bruxaria teve início na Idade Média, quando mulheres (em sua maioria) eram perseguidas, torturadas e queimadas pela Inquisição sob a acusação de heresia.

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As origens são mais antigas e alguns elementos da feitiçaria contribuíram para formar a imagem da bruxa. Os sumérios, por exemplo, acreditavam que o mundo era povoado de espíritos hostis. Um dos mais malignos era Lilitu, um demônio que voava à noite, acompanhada de corujas e leões, copulava com homens adormecidos e assassinava crianças.

No Sudão, os azande celebravam reuniões com fartos banquetes nas quais praticavam magia. Esfregavam unguento na pele a fim de se tornarem invisíveis e vagavam pela noite em busca da alma de suas vítimas. Outras crenças, como o vodu haitiano, que reúne elementos do cristianismo, paganismo e da magia, também influenciaram a bruxaria.

A própria evolução da religião no mundo foi moldando esse conceito. Aos poucos, e com um empurrão canalha da Igreja Católica, as bruxas passaram a ser vistas como a encarnação do Diabo. Na Idade Média, o dualismo entre o Deus bonzinho, de um lado, e o malvado Satanás, do outro, condenou a bruxaria às práticas de heresia.

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Islândia: futebol, cinema e O Assassino de Valhalla

O Assassino de Valhalla, da Netflix
O Assassino de Valhalla, nova série da Netflix que se passa na Islândia

Três anos antes de o time de futebol da Islândia ficar famoso com a conquista de uma vaga inédita na Copa do Mundo de 2018 e chamar a atenção por entoar saudações viking com a torcida, tive contato com uma comitiva de cineastas do país que vieram ao Brasil apresentar seus filmes na 43ª Mostra Internacional de Cinema de SP.

Nessa época, meu trabalho na Mostra era entrevistar um monte de cineastas de todo canto do mundo e publicar no site do evento uma breve apresentação de cada filme selecionado. Era um momento fantástico do cinema islandês! Pelo menos três filmes haviam sido premiados em festivais como Cannes, Tribeca e Berlim.

Todos eles tinham em comum o jeito simples e realista de filmar a realidade peculiar do país. Um deles, Pardais, é uma pequena obra-prima. Conta a história de um garoto de 16 anos em conflito na relação com os pais.

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Até então só sabia que na Islândia as paisagens eram lindas, que a Björk é de lá e que quase todo sobrenome termina com “son”. Inclusive do diretor de Pardais, um jovem de cabelo lambido e senso de humor estranho chamado Rúnar Rúnarsson, com quem conversei na área reservada à imprensa do hotel Maksoud Plaza, em São Paulo.

Além de falar sobre o filme, ele me apresentou a Islândia. Fiquei sabendo que o país tinha pouco mais de 300 mil habitantes, que o sol não se punha no verão e que todos se conheciam. E que todos bebiam loucamente.

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O Poço: uma alegoria perturbadora em tempos de confinamento

O Poço, da Netflix
O ator Ivan Massagué em O Poço, da Netflix

Em tempos de coronavírus, com o mundo confinado em casa, a Netflix lançou na semana passada o filme espanhol O Poço em seu serviço de streaming. Pode ser um bom momento para refletir sobre nossa realidade. Assim como pode ser arriscado oferecer um conteúdo tão brutal num momento sensível.

O Poço (El Hoyo, no original) é uma alegoria do nosso sistema de classes e do darwinismo social. É uma crítica ao capitalismo e como ele corrompe a pureza congênita (será?) do ser humano. É também um bom entretenimento: um filme de terror com conteúdo.

A história é simples: em um mundo distópico funciona uma imensa estrutura que parece uma prisão vertical, sendo que cada cela ocupa um dos mais de 200 andares. Duas pessoas convivem em cada andar, que tem cama, pia e banheiro – e só. Alguns são criminosos, outros são voluntários que passam pela experiência em troca de uma recompensa.

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Na parte central dessa estrutura, no meio dos andares, uma base de concreto circula de cima a baixo como um elevador. Sobre essa base há um banquete preparado pela administração do lugar. Um banquete mesmo: com lagosta, bolos de festa, peru, escargot.

O jogo de convivência é o seguinte: quem está nos andares de cima tira proveito de um farto banquete, enquanto os que estão embaixo ficam com as sobras. Lá no fim do poço, não resta comida.

Em teoria, a comida é suficiente para todos que estão na prisão, mas os mais abastados se alimentam além da necessidade, deixando os demais sem uma migalha.

Atenção: conto mais sobre o filme a partir daqui, há spoilers adiante.

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O Farol: um norte para entender o filme

O Farol, de Robert Eggers
Cena do filme O Farol, de Robert Eggers

Quase tudo tem a ver com pênis no filme O Farol. Esse símbolo fálico é explorado pelo diretor Robert Eggers de diversas maneiras. O próprio formato do farol é tratado como um pinto enorme, cuja luz magnética que tanto atrai os dois personagens seria como a cabeça sensível do membro. Ela guia o ato dos homens, assim como orienta os marujos no mar.

O pênis é o maior representante, como nos ensinou estudiosos da psicologia, da masculinidade, pelo qual os homens demonstram sua força e virilidade. A luta por poder entre dois homens enclausurados em uma ilha remota é o tema central de O Farol, assim como o esforço deles na tentativa de dominar a natureza inclemente.

Foi assim que eu vi (e interpretei) o novo filme do diretor Robert Eggers, que esteve à frente do excelente A Bruxa. Junto com seu irmão, Max, Eggers construiu uma história fabulosa, sombria e cheia de referências à mitologia e à literatura náutica. E filmada em película 35 mm, em preto e branco e no formato quadradinho, como eram rodados os filmes no começo do século 20, ou seja, nos primórdios do cinema.

+ Midsommar: paganismo no interior da Suécia

Willem Dafoe interpreta Thomas, um velho ranzinza que há anos zela pelo funcionamento de um farol isolado do continente, em New England no fim do século 19. Para ajudá-lo nas tarefas diárias, ele recebe a companhia de um jovem que cortava lenha nas montanhas do Canadá, o calado e desconfiado Ephraim Winslow (Robert Pattinson).

Robert Pattinson em O Farol
Robert Pattinson no filme de terror O Farol

A convivência em um ambiente remoto e selvagem vai testar a paciência e a sanidade dos dois. Thomas adora dar ordens, enquanto Ephraim pega no pesado, limpando a casa que fica ao lado do farol, arrumando as telhas, limpando a caixa de água. À noite, eles dividem a mesa para comer e beber. Com o tempo, a bebida passa a ser um alento para o duro trabalho.

Assim como ocorre em O Iluminado, do Kubrick, muitas dúvidas surgem na cabeça do espectador: o que de fato está acontecendo e o que é imaginação fruto da mente perturbada dos personagens. Em entrevistas, Eggers prefere deixar a questão em aberto.

A violência vai ganhando camadas aterrorizantes na relação entre dois homens que, aos poucos, se comportam como dois animais primitivos, se engalfinhando por espaço e poder. A atmosfera esfumaçada, pesada e comprimida sufoca o espectador, que busca respostas no meio do caos.

Assista ao trailer de O Farol

Enquanto isso, Eggers recheia O Farol com um monte de referências e citações. Vou tentar decifrar alguma delas a seguir. Para quem ainda não viu, há spoilers adiante:

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Midsommar: terror hippie no calor da Suécia

Midsommar
Christian e Dani assistem à ritual macabro em Midsommar, de Ari Aster

Tudo acontece à luz do dia no filme Midsommar, o que, cá entre nós, é bem incomum nas produções de terror. Essa é uma das graças da última obra do diretor Ari Aster, que causou burburinho em torno de seu nome depois do lançamento de Hereditário.

Quando cai a noite e todos vão dormir, Aster opta por cortar a cena, dar um salto no tempo de algumas horas, e retomar a ação quando está claro de novo.

Midsommar foi um dos filmes mais comentados de 2019, figurando inclusive na prestigiosa lista de melhores do ano da revista britânica Sight and Sound, mesmo competindo fora do seu gênero.

A meu ver, é bom porque consegue amarrar a história maluca de uma seita pagã na Suécia com a carga emocional do luto de uma das personagens principais.

+ O lado humano da série Inacreditável, da Netflix

Dani, interpretada pela atriz Florence Pugh, é uma jovem que sente as agruras da irmã deprimida e enfrenta instabilidades na relação com seu namorado, o insensível Christian (Jack Reynor). Logo no início da trama, ela passa por uma terrível tragédia — não vou contar muito para guardar a surpresa.

Alerta de spoiler: daqui pra baixo conto um pouco mais sobre a história.

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A literatura bruta de Ana Paula Maia em Enterre Seus Mortos

Enterre Seus Mortos, sétimo romance da escritora carioca Ana Paula Maia
Enterre Seus Mortos, sétimo livro da carioca Ana Paula Maia

O personagem principal de Enterre Seus Mortos, livro da escritora Ana Paula Maia que venceu o Prêmio São Paulo de Literatura deste ano, é um removedor de corpos de animais mortos. Edgar Wilson zanza com sua Caravan por estradas desertas, recolhe os bichos, leva para um moedor e, a partir dos restos triturados deles, passa pelo processo de compostagem.

Ana Paula Maia narra nas primeiras linhas o barulho dos ossos sendo triturados no moedor e o fedor que impregna o ambiente. Sentimos um sufocamento logo de cara. Não existe emoção naquela ação do dia a dia que, para Edgar Wilson, não passa da execução de um trabalho de rotina.

É assim a literatura da autora carioca que escreve como se esculpisse um calcário: de forma bruta, mas precisa, sem nenhum excesso.

Em Enterre Seus Mortos, seu sétimo romance, estamos em uma região não identificada, onde o Estado é ausente, as instituições públicas são omissas ou corruptas, as pessoas vivem desoladas e os abutres sobrevoam sobre carcaças jogadas pelos cantos. Os personagens executam tarefas sem emoção, cumprindo seu dever sem questionar. São duros, como os personagens de Cormac McCarthy, e integram o cenário de um faroeste sem verniz. O branco do calcário que explode nas pedreiras é o único som que quebra o silêncio de Edgar Wilson.

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10 fatos que comprovam como estamos bem perto do apocalipse!

O livro-catástrofe de David Wallace-Wells

Ninguém dá bola para o aquecimento global. Talvez porque sentimos medo dele e não temos força para encará-lo de frente. Ou porque somos egoístas por natureza e nos preocupamos apenas em colocar um ar-condicionado no quintal e ignorar o clima lá fora. Provável que a gente não queira assumir a responsabilidade por acabar com o planeta e tornar cúmplice de tamanha desgraça. Pode ser também preguiça de compreender os estudos científicos complexos que mostram como emitimos mais da metade do carbono da atmosfera nas últimas três décadas.

Acontece que uma série de evidências, magistralmente narradas no livro A Terra Inabitável: Uma História do Futuro, do jornalista americano David Wallace-Wells, deixa claro que estamos caminhando a passos largos do fim. E, nesse caso, não é fantasia. Não vai sobrar zumbi para contar história.

A abrangência e a urgência do tema são tão assustadores que resolvi fazer este post, mesmo fugindo um pouco do assunto que costumamos tratar por aqui. A verdade é que não deixar de ser um terror o que veremos abaixo.

Listei, ainda de acordo com o vasto estudo feito por David em A Terra Inabitável, 10 fatos que comprovam que até 2100 vamos experimentar o gosto de uma tragédia de grandes proporções. E com seríssimas consequências, que afetam primeiro os países mais pobres, mas que não vão aliviar a confortável existência dos mais ricos.

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O lado humano de Inacreditável, série da Netflix sobre caso de estupro

Marie Adler (Kaitlyn Dever) em cena da série Inacreditável, da Netflix

Inacreditável é uma das melhores séries que eu vi neste ano, ao lado de Olhos que Condenam e Chernobyl. Já falei sobre as duas últimas aqui no blog.

Se você é fã de histórias de crime, do tipo True Detective e Mindhunter, já se joga no sofá hoje à noite e bota lá na Netflix.

São oito episódios que contam a história de uma garota que vive em um abrigo social para órfãos, em Lynnwood, no estado de Washington (EUA). Em 2008, ela revela a policiais locais que foi vítima de estupro. Diz que um homem de uns 30 e poucos anos invadiu sua casa à noite e a violentou por horas.

O caso é inspirado em uma reportagem real produzida pela ProPublica e The Marshall Project, duas agências de notícias independentes dos EUA. Uma denúncia grave sobre como um sistema judicial incompetente e maldoso pode arruinar a vida de pessoas.

+ Gostou de Inacreditável? Assista Olhos que Condenam

Pode ser que tenha um ou outro spoiler daqui para frente, mas vou tentar evitar contar demais.

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