Por que tantos livros têm “girl” no título? O suspense sob a ótica das mulheres

Faz tempo que tenho notado a grande quantidade de livros de suspense com a palavra “girl” no título. A começar pela série Millennium, do escritor sueco Stieg Larsson: The Girl With the Dragon Tattoo (2005), The Girl Who Played with Fire (2006) e The Girl Who Kicked the Hornets Nest (2007). Estou me baseando nos títulos em inglês, há algumas variações quando eles são adaptados para o português. O enorme sucesso conquistado por Larsson parece ter sido um abre-alas para uma avalanche de outras obras com “garotas” estampadas na capa.

Em junho de 2012, a escritora americana Gillian Flynn lançou seu terceiro livro, Gone Girl (Garota Exemplar, na tradução em português), e alcançou uma popularidade inesperada ao contar a história do desaparecimento de Amy no dia de seu aniversário de casamento. Vendeu naquele ano mais de 2 milhões de exemplares e liderou a lista de mais vendidos do New York Times. A trama virou um ótimo filme dirigido por David Fincher, com a atriz Rosamund Pike no papel principal, ao lado de Ben Affleck.

Gillian Flynn
A escritora americana Gillian Flynn, autora de Garota Exemplar

Outro sucesso estrondoso veio em 2015 com o lançamento de The Girl on the Train (A Garota no Trem, em português), da inglesa Paula Hawkins. Aqui, temos o ponto de vista de Rachel Watson, uma jovem desiludida de 30 e poucos anos que adora tomar um porre e aproveita o caminho de trem que faz diariamente para observar a vida de um casal cuja relação é supostamente perfeita, até ela testemunhar algo estranho e se envolver em um thriller psicológico.

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Chernobyl: o terror é maior quando é real

Chernobyl
Chernobyl, da HBO, recria o maior desastre nuclear da história (Foto: Divulgação)

Chernobyl, a série da HBO que dramatiza um dos piores acidentes nucleares da história, ganhou força sem alarde, foi indo no boca a boca e se tornou o programa mais comentado depois do fim de Game of Thrones. No site IMDB, conquistou 9,6 pontos na opinião de mais de 230 mil usuários, o que a coloca como a série mais bem avaliada de todos os tempos.

São apenas cinco episódios de uma hora e pouco cada um. Por isso, em nenhum momento dá aquela sensação de que os produtores estão te enrolando, enchendo linguiça, desviando a sua atenção. Assisti como se fosse um filme longo. Não é suave de ver, pelo contrário, é dramática, aterrorizante e cruel. Mas muito bem-feita!

Apesar de contar a história do desastre nuclear ocorrido em 26 de abril de 1986 na antiga União Soviética (onde hoje é a Ucrânia), quando um reator explodiu e espalhou radiação por quilômetros, afetando a saúde de milhares de pessoas, Chernobyl é uma coprodução dos EUA e Inglaterra falada em inglês, com nomes conhecidos como Jared Harris e Emily Watson.

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O escritor Craig Mazin e o diretor Johan Renck (que dirigiu episódios de Breaking Bad e The Walking Dead) mergulharam em pesquisas sobre a tragédia, entrevistaram sobreviventes e, em alguns momentos, fantasiaram o enredo para além do que de fato aconteceu.

Conseguiram condensar a trama em torno de diferentes pontos de vista: de um cientista às voltas com questões éticas, de uma física corajosa, de uma mãe vítima da catástrofe, de burocratas do Comitê Central do Partido Comunista, de operários oprimidos a serviço de um Estado poderoso.

Chernobyl
Jared Harris interpreta o cientista Legasov em Chernobyl

O resultado é uma série impactante, ainda que pesada, e construída com muito cuidado — desde o visual de época esmaecido (os tons de verde pastel, o amarelado e o vermelho soviético), o clima tenso, as construções grandiosas que simbolizam o regime soviético e o roteiro que avança como um pesadelo. Em muitos momentos, o realismo transborda para a zona do terror. O efeito da radiação corroendo o corpo das vítimas, por exemplo, é digno dos filmes do canadense David Cronenberg.

Os limites do ser humano em uma situação de estresse e pressão

Mazin e Renck não têm pressa de contar a história, fornecem aos poucos informações para o público desvendar o motivo de tamanho desastre. Aos poucos, percebemos que nem tudo é tão simples como parece. Numa situação caótica, o limite do ser humano é testado constantemente: até que ponto somos solidários, até que ponto nos sacrificamos para ajudar o próximo, até onde vai a moral em um regime de exceção?

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Greta Van Fleet mostra paz, amor e um rockão da porra no Audio em SP

Greta Van Fleet
Greta Van Fleet no Lollapalooza no Chile 

Sei que muita gente torce o nariz para o Greta Van Fleet ao definir o som dos garotos de 20 e poucos anos como uma cópia descarada do Led Zeppelin. Convido essa turma para ver um show da banda, em vez de ficar atirando pedra sem conhecer direito o alvo.

Falo isso porque fui ver a apresentação que eles fizeram na última segunda (8), no Audio Club, em São Paulo, e cheguei à conclusão de que a acusação é injusta. Primeiro porque eles não têm a menor pretensão de ser o Led Zeppelin e, além disso, se formos usar esse critério de roubar-o-som-do-outro, não vai sobrar muita gente.

Fora essa polêmica tola, o importante é que o show dessa banda que veio da pequena cidade de Frankenmuth, no Michigan, tem uma vibe boa demais! Eles estão ali para se divertir e não parecem nem um pouco preocupados com rótulos. Brincam no palco, berram, fazem dancinhas estranhas, distribuem flores para a plateia.

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É uma bobagem colocar o peso de que a salvação do rock está em bandas como o Greta. Como disse, eles não parecem preocupados com isso — nem acho que o rock precise de um salvador. Assim como o The Black Crowes ou o mais recente Rival Sons, o Greta Van Fleet simplesmente tem como influência grupos com uma pegada de blues-rock raiz. E nunca negaram isso!

Os três irmãos Josh, Jake e Samuel Kiszka (os dois primeiros são gêmeos) e o baterista Daniel Wagner chegaram a São Paulo como uma das atrações principais do Lollapalooza e arrastaram uma multidão de fãs ao festival. Eu fui conferir o show extra que eles fizeram no dia seguinte.

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Nós: o que está por trás do espelho no filme do momento

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Adelaide em Nós, de Jordan Peele

Não é fácil misturar terror, comédia e drama social em um filme como fez Jordan Peele em Nós. Mais difícil ainda é combinar tudo isso sem cair no ridículo. E não é que o diretor americano mais badalado do momento conseguiu. Nós dá frio na barriga, te faz pensar e garante algumas boas risadas. Depois de sair do cinema, a sensação é de que nesse turbilhão de informação a gente sai perdendo alguma coisa.

Nós é feito por um cara apaixonado por filmes de terror — isso é notável pelas referências a clássicos dos anos 1970 e 1980 como Tubarão e O Iluminado, assim como M. Night Shyamalan. Aliás, o talento precoce desses dos dois astros do terror foram comparados, no início de carreira, ao de Spielberg e Hitchcock.

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Os dois se assemelham por reinventar o gênero bebendo na fonte dos clássicos e por ter um controle excepcional da história, da câmera, dos cortes, deixando o público na palma de suas mãos.

Há tempo não via uma plateia tão engajada — gritando, torcendo e se escondendo — com um filme no cinema. Tá certo que era uma sessão de domingo lotada de adolescentes histéricos, mas é um sinal claro do poder do filme.

Cena do filme Us
Cena do filme Nós

Mas, além do entretenimento que Jordan Peele proporciona em Nós e um desfecho surpreendente, vem junto uma reflexão intricada sobre segregação, abandono, hipocrisia e, sobretudo, o lado oculto dos americanos.

A história corre em dois períodos distintos. Primeiro, acompanhamos a pequena Adelaide Wilson se divertindo com a família em um parque de diversões à beira da praia, até ela se perder de todos e entrar em uma sala de espelhos, onde passa por uma experiência reveladora. Depois de um pulo no tempo, Adelaide (agora interpretada pela genial Lupita Nyong’o) é mãe de dois filhos e está a caminho de uma viagem para Santa Cruz, na Califórnia, onde vai curtir as férias.

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Esta é a base da história. Daqui pra frente, avanço na trama com alguns spoilers. Para quem já viu o filme, discuto mais adiante o que entendo sobre a metáfora proposta por Peele.

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O estranho rock do Leprous em pleno Carnaval de SP

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O jeitão social do Leprous no show que abalou o Carnaval de SP

Mais um domingo de chuva com show de metal em uma casa de pagode. Por isso São Paulo é tão legal. Em um fim de semana em que a cidade respirava Carnaval, com blocos disputando espaço a cada bairro, optei por ir ao Carioca Club, em Pinheiros, para ver os noruegueses do Leprous. Que puta show os caras fizeram!

O Leprous é uma banda de metal (ou rock?) progressivo relativamente nova. Lançou em 2017 o quinto álbum de estúdio, Malina. Desde 2001 na estrada, trocou algumas vezes de integrantes e de sonoridade também. No início, soava mais pesado, mais dark. Hoje, tem uma pegada mais lírica, complexa.

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Como todo som que vem da Noruega, logo pensamos na influência do black metal. Mas, apesar de os integrantes do Leprous apoiarem as apresentações do cantor Ihsahn (do Emperor), o som da banda não chega a ser tão sombrio, apesar do ar meio melancólico.

Aliás, é difícil (e improdutivo) classificar o som dos caras. Só sei que contagiou os cerca de 300 metaleiros que foram ver a primeira apresentação do grupo no Brasil, com camisetas do Opeth, Gojira, Deftones.

A noite começou lenta com a bonita música Bonneville, que abre o disco Malina. Lenta e meio estranha. Liderado pelo vocalista e tecladista Einar Solberg, o grupo parece estar no palco de uma festa de casamento: todos de camisa (tirando o baterista Baard Kolstad), os cabelos curtinhos bem cortados, o jeitão de bons moços. Só que, de repente, quando você menos espera, eles explodem. Cada um vai para um lado, se cruzando no palco, num intenso movimento de headbanging (as cabeças subindo e descendo violentamente). Em alguns momentos, fiquei com receio de um deles dar uma cabeçada no braço da guitarra ou do baixo. Mas é um caos dosado que dá muito certo no palco.

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O que estão falando sobre Us, novo filme de Jordan Peele

Lupita Nyong'o em cena do filme Us, de Jordan Peele
Lupita Nyong’o em cena do filme Us, de Jordan Peele

Depois do tremendo sucesso de Corra, filme de terror que venceu o Oscar de melhor roteiro original ao colocar a questão racial em uma trama tensa, todos os olhos se voltaram para Jordan Peele, o diretor que começou a carreira como comediante e, meio sem querer, se tornou queridinho dos fãs de terror. Pois ele está de volta!

Seu novo filme, Us (tudo indica que vai se chamar Nós no Brasil), acabou de estrear no festival South by Southwest (SXSW), em Austin, no Texas, e já está deixando a internet maluca. Os comentários de quem já assistiu são, em geral, entusiasmados. Teve gente chamando Peele de “novo Hitchcok” e “novo John Carpenter”, outros classificando o filme como mais uma obra-prima do terror.

Me faz lembrar o caso do M. Night Shyamalan, outro diretor de terror incensado no início da carreira, catapultado ao patamar de gênios como Hitchcock, e que se perdeu entre um projeto e outro.

No site Rotten Tomatoes, que compila as impressões sobre os principais lançamentos do cinema e dá uma nota geral ao filme, Us está até o momento com 100% de aprovação, em uma lista de 39 críticas. É um ponto de partida promissor, mas, claro, dependerá do público corroborar essa análise inicial.

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A febre dos true crime podcasts

Podcast The Teacher's Pet
The Teacher’s Pet: podcast sobre o desaparecimento de Lynette Dawson

Antes da popularização da TV como o principal meio de comunicação na casa das pessoas, as famílias se reuniam, na primeira metade do século 20, em volta de um aparelho de rádio para ouvir radionovelas: dramalhões açucarados que contavam com vozes conhecidas de atores, efeitos sonoros e uma narração que atiçava a curiosidade do ouvinte. Era o entretenimento da época — e dizem que funcionava muito bem.

Pensei  nisso porque, de uns tempos pra cá, ando viciado em podcasts de crimes reais. Esse formato de conteúdo veiculado via streaming usando apenas o recurso de áudio tornou-se uma febre. E muito desse sucesso se deve, principalmente nos EUA, aos programas dedicados a resgatar, desvendar ou trazer à tona com novas informações casos de assassinatos misteriosos, matadores em série, desaparecimentos. O fenômeno ficou conhecido como true crime podcasts.

+ Immersive horror: é tudo real!

Claro que em vez de escutar as histórias na sala de casa, como acontecia antigamente com as radionovelas, hoje ouço no trajeto de ônibus para o trabalho, em uma viagem longa, antes de dormir, na sala de espera de um consultório, lavando louça.

A ideia deste post é desenhar um panorama de como isso se popularizou e dar dicas de alguns bons podcasts no final. Além de te prender por algumas horas — muitos deles são repartidos em episódios como as séries –, é uma ótima ferramenta para treinar o inglês. (Infelizmente, as produções são quase todas gringas).

Em 2014, o podcast Serial foi o grande precursor de uma onda que só vem ganhando volume nos últimos anos. Produzido e narrado em primeira pessoa pela jornalista americana Sarah Koenig, o programa foi baixado 175 milhões de vezes, assumiu a primeira posição de downloads no iTunes por várias semanas e, em abril de 2015, foi premiado no Peabody Award pela narrativa inovadora.

Serial Podcast
Serial: o precursor da onda de true crime podcasts

Na primeira temporada, Serial contou a história da misteriosa morte por estrangulamento de uma estudante de 18 anos, Hae Min Lee, em Baltimore no ano de 1999. Acusado por uma fonte anônima, o ex-namorado da garota, Adnan Masud Syed, foi condenado pelo homicídio, apesar de até hoje declarar inocência.

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Livro Nas Profundezas examina com rigor e sarcasmo o ocultismo

Livro Nas Profundezas, do escritor J. K. Huysmans
Nova edição de “Nas Profundezas”, do escritor francês J. K. Huysmans

Nas Profundezas é um dos livros mais misteriosos do fim do século 19. Em uma França dominada pela revolução industrial e pelos prazeres mundanos, o escritor J. K. Huysmans investiga o satanismo que renasce no país ao retratar um estudioso do assassino de crianças Gilles de Rais. Ao mesmo tempo, o autor questiona sua própria espiritualidade enquanto pesquisa a fundo cerimônias de missa negra, práticas de necrofilia e infanticídio em série.

Ganhei da minha mulher a caprichada edição limitada da Carambaia e aproveitei as folgas da virada do ano para ler Nas Profundezas. É uma paulada construída com o esmero de um escritor naturalista, preocupado em dar embasamento à sua narrativa. Entre uma cerveja e outra na Bahia, mergulhei fundo nesta obra surpreendente.

+ O livro oculto de Xerxenesky

Huysmans não é um autor muito conhecido no Brasil, mas integrou um time de calibre pesado da literatura francesa e fez companhia a Émile Zola, Edmond de Goncourt e Gustave Flaubert. Seu nome foi desenterrado recentemente pelo polêmico escritor Michel Houellebecq, cuja obra Submissão (2015) faz inúmeras alusões a Huysmans.

Em 16 de fevereiro de 1891, o jornal francês L’Écho de Paris estampou na sua primeira página uma chamada para um dos capítulos de Nas Profundezas, que foi publicado aos poucos no diário. Dizia o seguinte: “Primeiro estudo de observação do real feio a partir de documentos autênticos sobre o satanismo contemporâneo”.

Mas o que há de tão assustador no livro de Huysmans?

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