O lado humano de Inacreditável, série da Netflix sobre caso de estupro

Marie Adler (Kaitlyn Dever) em cena da série Inacreditável, da Netflix

Inacreditável é uma das melhores séries que eu vi neste ano, ao lado de Olhos que Condenam e Chernobyl. Já falei sobre as duas últimas aqui no blog.

Se você é fã de histórias de crime, do tipo True Detective e Mindhunter, já se joga no sofá hoje à noite e bota lá na Netflix.

São oito episódios que contam a história de uma garota que vive em um abrigo social para órfãos, em Lynnwood, no estado de Washington (EUA). Em 2008, ela revela a policiais locais que foi vítima de estupro. Diz que um homem de uns 30 e poucos anos invadiu sua casa à noite e a violentou por horas.

O caso é inspirado em uma reportagem real produzida pela ProPublica e The Marshall Project, duas agências de notícias independentes dos EUA. Uma denúncia grave sobre como um sistema judicial incompetente e maldoso pode arruinar a vida de pessoas.

+ Gostou de Inacreditável? Assista Olhos que Condenam

Pode ser que tenha um ou outro spoiler daqui para frente, mas vou tentar evitar contar demais.

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Série Olhos que Condenam relata caso de estupro e aponta para brutal injustiça

Cena de Olhos que Condenam, série da Netflix baseada em caso real

Não conhecia a história dos cinco garotos negros que foram acusados de agredir e estuprar uma corredora branca no Central Park, em 1989. Em abril daquele ano, a jovem executiva de um banco, Trisha Meili, de 28 anos, saiu para um treino à noite e foi violentada. Ela foi levada ao hospital, onde ficou meses em coma.

Toda a suspeita recaiu sobre uma gangue que estava no parque, segundo algumas testemunhas, fazendo arruaça. Brigas e brincadeiras violentas eram comuns entre esses jovens. Cinco deles — Korey Wise, Raymond Santana, Kevin Richardson, Antron McCray e Yusef Salaam — prestaram depoimentos à polícia e, sob coação, confessaram o crime brutal. Acontece que a realidade não foi bem assim.

A série Olhos que Condenam, da Netflix, se debruça sobre o caso em um trabalho dramático e corajoso da diretora Ava DuVernay, que esteve à frente de produções como Selma e A 13ª Emenda, todas obras importantes no combate ao racismo nos EUA. São quatro episódios de uma minissérie que toca em feridas abertas, como o tratamento enviesado dado pela justiça americana aos negros.

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É inacreditável como o caso é encaminhado mesmo sem haver provas físicas, testes de DNA ou qualquer outra comprovação de culpa. Ava DuVernay aponta o dedo para um grupo de promotores que age de forma irresponsável e leviana, para o dizer o mínimo.

Olhos que Condenam: caso de 1989 reabre discussão sobre racismo

Se olharmos para o Brasil imagino que encontraremos inúmeros casos semelhantes, de julgamentos realizados às pressas, com decisões tendenciosas carregadas de preconceito tanto dos juízes quanto dos acusadores. O que a série Olhos que Condenam mostra é muito sério!

Se você prefere assistir sem saber os detalhes do caso melhor parar por aqui, pode ser que tenha um ou outro spoiler daqui pra frente.

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Chernobyl: o terror é maior quando é real

Chernobyl
Chernobyl, da HBO, recria o maior desastre nuclear da história (Foto: Divulgação)

Chernobyl, a série da HBO que dramatiza um dos piores acidentes nucleares da história, ganhou força sem alarde, foi indo no boca a boca e se tornou o programa mais comentado depois do fim de Game of Thrones. No site IMDB, conquistou 9,6 pontos na opinião de mais de 230 mil usuários, o que a coloca como a série mais bem avaliada de todos os tempos.

São apenas cinco episódios de uma hora e pouco cada um. Por isso, em nenhum momento dá aquela sensação de que os produtores estão te enrolando, enchendo linguiça, desviando a sua atenção. Assisti como se fosse um filme longo. Não é suave de ver, pelo contrário, é dramática, aterrorizante e cruel. Mas muito bem-feita!

Apesar de contar a história do desastre nuclear ocorrido em 26 de abril de 1986 na antiga União Soviética (onde hoje é a Ucrânia), quando um reator explodiu e espalhou radiação por quilômetros, afetando a saúde de milhares de pessoas, Chernobyl é uma coprodução dos EUA e Inglaterra falada em inglês, com nomes conhecidos como Jared Harris e Emily Watson.

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O escritor Craig Mazin e o diretor Johan Renck (que dirigiu episódios de Breaking Bad e The Walking Dead) mergulharam em pesquisas sobre a tragédia, entrevistaram sobreviventes e, em alguns momentos, fantasiaram o enredo para além do que de fato aconteceu.

Conseguiram condensar a trama em torno de diferentes pontos de vista: de um cientista às voltas com questões éticas, de uma física corajosa, de uma mãe vítima da catástrofe, de burocratas do Comitê Central do Partido Comunista, de operários oprimidos a serviço de um Estado poderoso.

Chernobyl
Jared Harris interpreta o cientista Legasov em Chernobyl

O resultado é uma série impactante, ainda que pesada, e construída com muito cuidado — desde o visual de época esmaecido (os tons de verde pastel, o amarelado e o vermelho soviético), o clima tenso, as construções grandiosas que simbolizam o regime soviético e o roteiro que avança como um pesadelo. Em muitos momentos, o realismo transborda para a zona do terror. O efeito da radiação corroendo o corpo das vítimas, por exemplo, é digno dos filmes do canadense David Cronenberg.

Os limites do ser humano em uma situação de estresse e pressão

Mazin e Renck não têm pressa de contar a história, fornecem aos poucos informações para o público desvendar o motivo de tamanho desastre. Aos poucos, percebemos que nem tudo é tão simples como parece. Numa situação caótica, o limite do ser humano é testado constantemente: até que ponto somos solidários, até que ponto nos sacrificamos para ajudar o próximo, até onde vai a moral em um regime de exceção?

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A Maldição da Residência Hill: os fantasmas escondidos dentro de nós

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Cena de A Maldição da Residência Hill, nova série da Netflix (Divulgação)

Filme de casa mal-assombrada é aquela coisa manjada: passagens secretas, fantasmas embaixo da cama, seres sobrenaturais escondidos no armário, maçanetas que se movem sozinhas, aparições refletidas no espelho. Qual foi o último desse subgênero que deixou sua marca? Horror em Amityville, Os Outros, Atividade Paranormal ou, talvez, o mais recente Hereditário.

Acontece que esse tipo de filme, explorado por importantes diretores desde o início do cinema em produções como The Cat and the Canary (1927) e The Old Dark House (1932), ainda é uma fértil fonte de inspiração e funciona bem hoje em dia. O diretor Mike Flanagan, responsável pela nova série da Netflix A Maldição da Residência Hill, parece ter noção disso.

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Se eu fosse um psicólogo, daria o seguinte diagnóstico: a casa representa o lugar mais seguro para todo mundo. É para onde voltamos quando precisamos de colo ou enfrentamos um período turbulento. É o nosso refúgio quando temos medo. Portanto, é um ícone inviolável de todas as famílias. Aí, quando coisas estranhas invadem esse ambiente, a lógica se corrompe e a estrutura emocional dos moradores entra em colapso.

Se voltarmos um pouco mais no tempo, encontramos o escritor Edgar Allan Poe tratando uma casa mal-assombrada como um organismo vivo e poderoso no conto A Queda da Casa de Usher (1839), no qual ele nos mostra a moradia como personagem principal e os moradores como vítimas de sentimentos como medo, derrocada e culpa.

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O pequeno Luke em A Maldição da Residência Hill (Divulgação)

É esse caminho, menos espetacular e mais psicológico, que Mike Flanagan percorre ao longo dos dez episódios da série A Maldição da Residência Hill. Além de sustos, ele propõe um estudo de personagens cuidadoso ao recriar a história da família Crain, contada no clássico livro de 1959 da autora Shirley Jackson.

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Mindhunter: somos todos fascinados por serial killers

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O agente do FBI Holden Ford em Mindhunter, nova série do Netflix

Mindhunter não tem pressa de impressionar o público nos primeiros episódios. Comparada a outras séries, desenvolve-se em banho-maria. É meticulosa, inteligente e construída com esmero: dos diálogos aos enquadramentos e aos movimentos precisos de câmera. É necessário prestar atenção para acompanhar as extensas falas e a lógica de raciocínio dos personagens. É assustadora, sem derramar muito sangue. É macabra mais pelo impacto mental do que pelo espetáculo visual.

Basicamente, dá para resumi-la como um estudo sobre a onda de serial killers que se alastrou pelos Estados Unidos entre as décadas de 1970 e 1980, quando o FBI ainda mal sabia como classificá-los. Mas, a meu ver, instiga também por outro ângulo: a fascinação da cultura ocidental por esse tipo de criminoso — filmes como O Silêncio dos Inocentes, Seven, Henry – O Retrato de um Assassino e séries (Criminal Minds, True Detective, The Fall, Hannibal) comprovam esse interesse.

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Acontece que o foco, em Mindhunter, está mais na cabeça dos criminosos e na maneira como eles são tratados e menos nas engenhosas concepções dos crimes. Aí já temos uma abordagem original. A série, cuja primeira temporada estreou no Netflix neste mês, foi criada por Joe Penhall, responsável por roteirizar para os cinemas o livro A Estrada, de Cormac McCarthy, e tem entre seus diretores o genial David Fincher. A escolha não pode ser mais acertada! Com certeza, Fincher sentiu-se em casa nessa função, já que esteve à frente de dois dos melhores filmes do gênero: Seven e Zodíaco.

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The Handmaid’s Tale: a série que o Netflix gostaria de ter feito

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Elisabeth Moss, de Mad Men, na série The Handmaid’s Tale

A melhor série lançada neste ano, The Handmaid’s Tale, não é produzida pelo Netflix nem estará disponível no famoso canal de streaming. A novidade vem de seu principal concorrente, o Hulu, empresa fundada em 2007 na Califórnia (EUA) que reúne entre os sócios pesos-pesados como Universal, Disney e Fox. Ou seja, vai dar trabalho ao Netflix.

The Handmaid’s Tale é a primeira grande aposta da companhia. Talvez tenha ganhado destaque por tocar em temas atuais palpitantes como feminismo, liberdade de expressão, regimes autoritários. Mas, além disso, a qualidade da série é indiscutível!

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Adorei a primeira temporada, a começar pela atuação espetacular da atriz Elisabeth Moss, a mesma que roubou a cena em Mad Men e terminou como a personagem mais interessante do drama de época sobre o mundo da publicidade, passando pela linda fotografia e pelo universo misterioso baseado na obra de Margaret Atwood. Já tinha ouvido falar, mas não conhecia o livro O Conto da Aia, da escritora canadense, que deu origem ao roteiro.

No fim de 2016, após a vitória de Trump numa disputa eleitoral que se transformou em guerra aberta contra Hillary Clinton, mulheres tomaram as ruas em algumas cidades dos EUA para defender seus direitos, em especial a garantia do aborto. Em março, um grupo de mulheres vestidas como se fossem as aias saídas do livro de Atwood — de vestidos longos vermelhos e chapéu branco cuja aba esconde o rosto de quem usa — protestou contra medidas autoritárias no Estado. Um mês depois desse episódio, The Handmaid’s Tale foi lançada. Pode ser apenas coincidência, ou uma ação oportunista do pessoal de marketing da Hulu, mas a verdade é que o timing perfeito contribuiu para o auê em torno da série.

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The Night Of ou quando o sistema te engole e você vira um monstro

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Nasir: o ator de origem paquistanesa Riz Ahmed

Comentar, nos tempos céleres atuais, sobre uma série do ano passado é quase como falar de um filme mudo dos primórdios do cinema. Mesmo assim, vou ser antiquado e dar meus pitacos a respeito de The Night of. Afinal, a regra é simples: gostei e quero falar bem de uma série legal no espaço que eu criei basicamente para mim mesmo.

Não que seja genial no sentido de reinventar a roda, mas é muito bem-feita e gostosa de assistir. Para quem gosta, claro, de suspense, histórias de tribunal e dramas prisionais. Um dos criadores de The Night of é o escritor e roteirista Richard Price, um cara que olha para a periferia dos EUA, retratando imigrantes e párias da sociedade, e extrai dali histórias e diálogos sensacionais. Leia Vida Vadia, livro de sua autoria que se passa no submundo de Nova York. Recomendo!

+ Santa Clara Diet: a série que zomba dos zumbis

Parte desse ambiente é o pano de fundo da série da HBO que foi ao ar em 2016. Nasir Khan é um jovem de 20 e poucos anos, de origem paquistanesa, que tem a cara e o jeito do bom moço. Assim começa a trama. Ele é convidado por amigos a uma festa que promete. Pega o táxi do pai sem pedir permissão, esquiva-se da mãe ao sair de casa e mergulha na noite de Nova York.

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Andrea Cornish (Sofia Black-D’Elia) em cena da série The Night Of

Ao passear com Nasir dentro do carro, com a câmera espiando os retrovisores, impossível não pensar em Taxi Driver, de Martin Scorsese, nas ruas esfumaçadas percorridas por Travis (Robert De Niro) como se fossem o caminho para o inferno. Como Nasir não sabe como desligar o sinal de táxi em operação, passageiros sinalizam e entram no carro. Ele expulsa dois deles, explicando que não está disponível para corridas. Entra, então, uma mulher e senta no banco traseiro. Diz que quer ir para a praia. Praia em Nova York, ele pensa?

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Santa Clarita Diet, a nova série da Netflix que zomba dos zumbis

Drew Barrymore matando a fome na série "Santa Clarita Diet"
Drew Barrymore matando a fome na série “Santa Clarita Diet”

Santa Clarita Diet pode ser uma piada de mau gosto para alguns, que podem acusar a nova série do Netflix, que estreou neste mês, de brincar com violência, morte e canibalismo e abusar do humor sarcástico. Sempre há puritanos de plantão no sofá. Eu, por outro lado, me diverti com os três primeiros episódios da primeira temporada. Afinal, ver a Drew Barrymore, que andava meio sumida dos cinemas, encarnando uma corretora de imóveis que morre e se transforma num zumbi sedento por carne humana é impagável.

Na série criada por Victor Fresco, ela interpreta Sheila, que é casada com o também corretor de imóveis (os dois fazem visitas juntos com clientes) Joel, (Timothy Olyphant), que adora se esconder no carro para fumar um baseado. Eles são casados há mais 20 anos, moram num subúrbio rico da Califórnia e têm uma filha, Abby, que fala o que lhe dá na telha sem medo de sermões.

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Estamos falando de uma produção de zumbis, mas atípica e original. Primeiro, por colocar uma mulher-zumbi como protagonista, depois por tirar sarro do gênero sem medo de parecer ridículo (muitas vezes, é ridículo mesmo) e, por fim, tem o mérito de humanizar e dar graça a uma criatura normalmente moribunda, pálida, sorumbática. Há uma inversão de valores: Sheila, antes de se tornar uma morta-viva, é uma pessoa insegura e sem graça; depois de virar um zumbi, quer tomar conta de todas situações, xinga todo mundo, se joga na pista com as amigas e se sente mais viva do que nunca, ainda que isso possa parecer um paradoxo.

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