Mindhunter: somos todos fascinados por serial killers

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O agente do FBI Holden Ford em Mindhunter, nova série do Netflix

Mindhunter não tem pressa de impressionar o público nos primeiros episódios. Comparada a outras séries, desenvolve-se em banho-maria. É meticulosa, inteligente e construída com esmero: dos diálogos aos enquadramentos e aos movimentos precisos de câmera. É necessário prestar atenção para acompanhar as extensas falas e a lógica de raciocínio dos personagens. É assustadora, sem derramar muito sangue. É macabra mais pelo impacto mental do que pelo espetáculo visual.

Basicamente, dá para resumi-la como um estudo sobre a onda de serial killers que se alastrou pelos Estados Unidos entre as décadas de 1970 e 1980, quando o FBI ainda mal sabia como classificá-los. Mas, a meu ver, instiga também por outro ângulo: a fascinação da cultura ocidental por esse tipo de criminoso — filmes como O Silêncio dos Inocentes, Seven, Henry – O Retrato de um Assassino e séries (Criminal Minds, True Detective, The Fall, Hannibal) comprovam esse interesse.

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Acontece que o foco, em Mindhunter, está mais na cabeça dos criminosos e na maneira como eles são tratados e menos nas engenhosas concepções dos crimes. Aí já temos uma abordagem original. A série, cuja primeira temporada estreou no Netflix neste mês, foi criada por Joe Penhall, responsável por roteirizar para os cinemas o livro A Estrada, de Cormac McCarthy, e tem entre seus diretores o genial David Fincher. A escolha não pode ser mais acertada! Com certeza, Fincher sentiu-se em casa nessa função, já que esteve à frente de dois dos melhores filmes do gênero: Seven e Zodíaco.

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The Handmaid’s Tale: a série que o Netflix gostaria de ter feito

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Elisabeth Moss, de Mad Men, na série The Handmaid’s Tale

A melhor série lançada neste ano, The Handmaid’s Tale, não é produzida pelo Netflix nem estará disponível no famoso canal de streaming. A novidade vem de seu principal concorrente, o Hulu, empresa fundada em 2007 na Califórnia (EUA) que reúne entre os sócios pesos-pesados como Universal, Disney e Fox. Ou seja, vai dar trabalho ao Netflix.

The Handmaid’s Tale é a primeira grande aposta da companhia. Talvez tenha ganhado destaque por tocar em temas atuais palpitantes como feminismo, liberdade de expressão, regimes autoritários. Mas, além disso, a qualidade da série é indiscutível!

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Adorei a primeira temporada, a começar pela atuação espetacular da atriz Elisabeth Moss, a mesma que roubou a cena em Mad Men e terminou como a personagem mais interessante do drama de época sobre o mundo da publicidade, passando pela linda fotografia e pelo universo misterioso baseado na obra de Margaret Atwood. Já tinha ouvido falar, mas não conhecia o livro O Conto da Aia, da escritora canadense, que deu origem ao roteiro.

No fim de 2016, após a vitória de Trump numa disputa eleitoral que se transformou em guerra aberta contra Hillary Clinton, mulheres tomaram as ruas em algumas cidades dos EUA para defender seus direitos, em especial a garantia do aborto. Em março, um grupo de mulheres vestidas como se fossem as aias saídas do livro de Atwood — de vestidos longos vermelhos e chapéu branco cuja aba esconde o rosto de quem usa — protestou contra medidas autoritárias no Estado. Um mês depois desse episódio, The Handmaid’s Tale foi lançada. Pode ser apenas coincidência, ou uma ação oportunista do pessoal de marketing da Hulu, mas a verdade é que o timing perfeito contribuiu para o auê em torno da série.

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The Night Of ou quando o sistema te engole e você vira um monstro

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Nasir: o ator de origem paquistanesa Riz Ahmed

Comentar, nos tempos céleres atuais, sobre uma série do ano passado é quase como falar de um filme mudo dos primórdios do cinema. Mesmo assim, vou ser antiquado e dar meus pitacos a respeito de The Night of. Afinal, a regra é simples: gostei e quero falar bem de uma série legal no espaço que eu criei basicamente para mim mesmo.

Não que seja genial no sentido de reinventar a roda, mas é muito bem-feita e gostosa de assistir. Para quem gosta, claro, de suspense, histórias de tribunal e dramas prisionais. Um dos criadores de The Night of é o escritor e roteirista Richard Price, um cara que olha para a periferia dos EUA, retratando imigrantes e párias da sociedade, e extrai dali histórias e diálogos sensacionais. Leia Vida Vadia, livro de sua autoria que se passa no submundo de Nova York. Recomendo!

+ Santa Clara Diet: a série que zomba dos zumbis

Parte desse ambiente é o pano de fundo da série da HBO que foi ao ar em 2016. Nasir Khan é um jovem de 20 e poucos anos, de origem paquistanesa, que tem a cara e o jeito do bom moço. Assim começa a trama. Ele é convidado por amigos a uma festa que promete. Pega o táxi do pai sem pedir permissão, esquiva-se da mãe ao sair de casa e mergulha na noite de Nova York.

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Andrea Cornish (Sofia Black-D’Elia) em cena da série The Night Of

Ao passear com Nasir dentro do carro, com a câmera espiando os retrovisores, impossível não pensar em Taxi Driver, de Martin Scorsese, nas ruas esfumaçadas percorridas por Travis (Robert De Niro) como se fossem o caminho para o inferno. Como Nasir não sabe como desligar o sinal de táxi em operação, passageiros sinalizam e entram no carro. Ele expulsa dois deles, explicando que não está disponível para corridas. Entra, então, uma mulher e senta no banco traseiro. Diz que quer ir para a praia. Praia em Nova York, ele pensa?

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Santa Clarita Diet, a nova série da Netflix que zomba dos zumbis

Drew Barrymore matando a fome na série "Santa Clarita Diet"
Drew Barrymore matando a fome na série “Santa Clarita Diet”

Santa Clarita Diet pode ser uma piada de mau gosto para alguns, que podem acusar a nova série do Netflix, que estreou neste mês, de brincar com violência, morte e canibalismo e abusar do humor sarcástico. Sempre há puritanos de plantão no sofá. Eu, por outro lado, me diverti com os três primeiros episódios da primeira temporada. Afinal, ver a Drew Barrymore, que andava meio sumida dos cinemas, encarnando uma corretora de imóveis que morre e se transforma num zumbi sedento por carne humana é impagável.

Na série criada por Victor Fresco, ela interpreta Sheila, que é casada com o também corretor de imóveis (os dois fazem visitas juntos com clientes) Joel, (Timothy Olyphant), que adora se esconder no carro para fumar um baseado. Eles são casados há mais 20 anos, moram num subúrbio rico da Califórnia e têm uma filha, Abby, que fala o que lhe dá na telha sem medo de sermões.

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Estamos falando de uma produção de zumbis, mas atípica e original. Primeiro, por colocar uma mulher-zumbi como protagonista, depois por tirar sarro do gênero sem medo de parecer ridículo (muitas vezes, é ridículo mesmo) e, por fim, tem o mérito de humanizar e dar graça a uma criatura normalmente moribunda, pálida, sorumbática. Há uma inversão de valores: Sheila, antes de se tornar uma morta-viva, é uma pessoa insegura e sem graça; depois de virar um zumbi, quer tomar conta de todas situações, xinga todo mundo, se joga na pista com as amigas e se sente mais viva do que nunca, ainda que isso possa parecer um paradoxo.

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Rua Cloverfield, 10: o que está por trás do jogo criado por J.J. Abrams?

Michelle (a atriz Mary Elizabeth Winstead) em Rua Cloverfield, 10
Michelle (a atriz Mary Elizabeth Winstead) em Rua Cloverfield, 10

Nem bem estreou e Rua Cloverfield, 10, suspense produzido por J.J. Abrams, uma das mentes mais criativas e espertas de Hollywood, responsável pelo sucesso da série Lost e diretor de Star Wars – O Despertar da Força, já está dando o que falar em discussões na internet, sobretudo entre os fãs da ficção científica Cloverfield, o filme de 2008, também produzido por Abrams, que mostrava Nova York sob o ataque de monstros, como se estivéssemos vendo um vídeo caseiro registrado por uma das vítimas.

Trata-se de uma sequência do original de 2008? Como ligar os dois filmes?

Aí o mistério ganha corpo graças, principalmente, à habilidade de Abrams em promover seus projetos, através de campanhas de marketing sorrateiras que, aos poucos, vão se agigantando pelo boca-a-boca virtual. Você já ouviu falar de ARG (Alternate Reality Game)? No final do post conto como ele é eficaz quando o objetivo é viralizar um conteúdo.

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Vinyl: um giro louco e intenso pelos anos 70 com Martin Scorsese

O canastrão Richie Finestra (Bobby Cannavale)
O canastrão Richie Finestra (Bobby Cannavale)

Queria ter falado sobre Vinyl, a nova série da HBO criada por Mick Jagger, Martin Scorsese e Terence Winter, um pouco antes, quando estreou em fevereiro. Confesso, no entanto, que foi bom ter dado um tempo de maturação. Assisti ao primeiro episódio e, quando os letreiros subiram, não sabia se tinha gostado muito ou pouco (o que é aquela cena da casa de shows desmoronando?). Agora, depois de cinco capítulos, já consigo fazer uma avaliação mais precisa.

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Dissecando ‘True Detective’: oito cenas com elementos ocultos

A série “True Detective”, de Nic Pizzolatto, tem rendido teorias e mais teorias sobre referências pagãs, rituais demoníacos e outras coisas do gênero que a gente mais gosta. Decidi reunir aqui alguns símbolos escondidos que podem ter passado batido para quem acompanhou a primeira temporada.

A impressão que dá é que Pizzolatto adora brincar com as pistas, inserir elementos para desafiar o espectador. Acredito que nem tudo o que sugere algo quer realmente dizer alguma coisa. Mas não deixa de ser divertido ficar caçando pelo em ovo. O crédito do que vem abaixo é todo do escritor Michael Hughes, que, no ótimo site io9, foi o primeiro a realmente se debruçar sobre a série, pausar e voltar cenas a fim de revelar dados ocultos. Confira oito cenas enigmáticas.

1. O diário de Dora Lange

No segundo episódio da série, o detetive Rust Cohle (Matthew McConaughey) encontra o diário de Dora Lange, a prostituta que foi morta num suposto ritual satânico. Referências ao livro de contos de terror “The King in Yellow”, obra do escritor americano Robert W. Chambers publicada em 1895, estão rabiscadas no caderno.

Um dos trechos é reproduzido fielmente: “Along the shore the cloud waves break/The twin suns sink behind the lake/The shadows lengthen/In Carcosa/Strange is the night where the black stars rise”.

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2. A tatuagem no pescoço de Carla

Carla, a personagem que diz aos investigadores que Dora havia frequentado uma estranha igreja antes de morrer, tem estrelas pretas tatuadas no pescoço. Esses elementos também remetem a um dos versos do livro de Chambers: “Strange is the night where the black stars rise”.

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3. A espiral dos pássaros

Quando o detetive Rust Cohle deixa uma igreja em chamas, durante a investigação do assassinato de Dora, ele olha para o alto e vê no céu pássaros que num voo caótico formam uma espiral negra, o mesmo elemento tatuado nas costas da vítima.

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4. A espiral de novo

Em várias cenas o símbolo de uma espiral aparece. Numa delas, ele pode ser visto na parede da casa de Martin Hart (Woody Harrelson), como se fosse um desenho de sua filha. Essas evidências apontam, segundo fãs, o detetive (ou seu pai, que tem uma brevíssima aparição) como um dos suspeitos pelas mortes.

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5. O sinal da cruz invertido

No terceiro episódio, o pastor Joel Theriot, cujo nome é quase idêntico a Therion, que, em grego, significa “A Besta”, faz o sinal da cruz no peito em ordem invertida, da direita para a esquerda. (Não consegui foto para ilustrar essa cena).

6. O monstro com cara de macarrão

O desenho de um homem com o rosto coberto de espaguete, que teria perseguido uma jovem na floresta, faz referência à figura pagã do “green man”. Em outra interpretação, a figura se refere à mítica criatura criada pelo escritor americano H.P. Lovecraft, Cthulhu.

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7. O retrato na casa da mãe de Dora

Uma estranha fotografia pode ser vista na visita que Martin e Rust fazem à casa da mãe de Dora. Cavaleiros mascarados aparecem na imagem como se participassem de um ritual pagão. Lembram também integrantes da organização racista Ku Klux Klan, que perseguiu negros nos EUA.

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8. As latinhas amassadas de Rust

Enquanto responde entediado aos questionamentos dos investigadores, Rust amassa latinhas de cerveja, depois de bebê-las, e monta bonequinhos que parecem compor a cena de um crime.

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Uma cena semelhante, se substituirmos latinhas por bonecas, pode ser vista no quarto da filha de Martin.

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