Missa da Meia-Noite: o terror natural que a religião nos impõe

Father Paul em cena da série Missa da Meia-Noite, da Netflix

Um filme de terror pode oferecer bem mais do que sustos. Normalmente, o gênero está atrelado à caixa do entretenimento e segue uma fórmula para ser bem-sucedido. Mas, além de me divertir com o que estou vendo, gosto de bisbilhotar nas sombras, questionar o lado mais oculto da vida e refletir sobre temas como religião, violência, culpa, medo, paranoia.

E um dos autores que mais entregam isso hoje em dia é Mark Flanagan. Ele coloca camadas extras na construção de suas histórias, indo além das máscaras assustadoras, da cadeira que range ou da criança possuída. Fez isso em A Maldição da Residência Hill, que comentei por aqui, e vai na mesma direção na ótima série Missa da Meia-Noite, ambas da Netflix.

Daquelas obras que ganham relevância com o tempo, que vão se multiplicando na nossa memória e desenterrando várias questões intrigantes porque tocam, de maneira muito pessoal, em tabus da sociedade. É provocativa e assustadora ao mesmo tempo, cadenciada e inteligente.

Flanagan aponta sem medo o dedo indicador (ou o do meio) para a hipocrisia da Igreja Católica – e acerta em cheio sua fiel clientela, em especial a classe média americana. A família branca que prega a liberdade entre seus valores essenciais, mas condena qualquer diferença que apareça pela frente. Mas Flanagan não faz uma acusação pueril, ele sabe do que está falando, provavelmente mergulhou fundo na Bíblia para extrair dali suas contradições.

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Em entrevistas, ele tem falado que é seu trabalho mais pessoal. Missa da Meia-Noite é uma história que começou a ser pensada há pelo menos 10 anos e sendo construída como um calvário em que o autor luta contra seus fantasmas. Flanagan frequentava a igreja quando era criança e, desde cedo, resistia a aceitar o que se pregava ali dentro.

Mas vamos à história – e a partir daqui, com alguns spoilers.

Riley e Father Paul em uma de suas conversas em Missa da Meia-Noite

Tudo começa com Riley, interpretado pelo ator Zach Gilford, se envolvendo em um acidente de carro, depois de pegar o volante bêbado, que termina com a morte de uma garota. Ali se instala uma culpa que o atormentará ao longo de toda a série. Ele vai preso, cumpre a pena sem se livrar da imagem da jovem morta em seus sonhos, e retorna a Crockett Island, uma vila de pescadores nos EUA movida pela fé na Igreja Católica.

Assim como os personagens, nós, os espectadores, ficamos presos em Crockett Island. A história contada em sete episódios (não à toa o mesmo número da criação do mundo, dos pecados capitais e das virtudes) se passa nesse cenário meio decadente, no qual coisas mágicas e enigmáticas acontecem.

As famílias se conhecem e parecem estar o tempo todo vigiando o comportamento das pessoas. Riley, apesar de ser um velho conhecido, volta como um forasteiro, um contraponto à vida pacata, conservadora e devotada dos moradores locais, incluindo seus próprios pais, que não aceitam o fato de o filho ignorar a fé cristã.

Ali ele vai encontrar a antiga amiga Erin Greene, interpretada por Kate Siegel, com quem consegue ter bons diálogos apesar de opiniões divergentes; o jovem padre recém-chegado à paróquia local Paul (Hamish Linklater), que assume as funções de um adorado reverendo; o xerife muçulmano Hassan (Rahul Kohli), que é alvo de olhares desconfiados da população, sobretudo da fervorosa Bev (Samantha Sloyan), uma espécia de guardiã espiritual da comunidade.

Temos nessa convivência uma locação perfeita para Flanagan extrair dos personagens questões profundas relacionadas à culpa, dominação, liberdade, fé, redenção, vício, envelhecimento, morte. Com a promessa de vida eterna, a igreja faz seu papel de injetar nas pessoas doses de esperança, exigindo em troca uma devoção cega. Aos poucos, notamos como a religião, com uma simbologia potente baseada no sangue e corpo de Cristo, estabelece as regras de conduta daquele microcosmo, determinando comportamentos e condenando os infiéis numa lavagem cerebral impiedosa.

Quando eu era menino também frequentei algumas vezes a igreja da minha cidade no interior, cheguei a fazer a primeira comunhão, assim como Flanagan, mas acabei me desviando daquele caminho, sem deixar de lado a curiosidade pela influência e poder que emanava daquele local sagrado. Quando adolescente, entrei em embates calorosos sobre a conduta da Igreja Católica e a violência de seus atos.

Missa da Meia-Noite parece nos mostrar o absurdo da religião o tempo todo. Estar em comunhão aos domingos, bebendo o sangue e comendo parte do corpo de Cristo, ouvindo histórias sanguinolentas sobre traição, vingança, morte. E nos imputando uma culpa cada vez maior por nossa conduta. Flanagan nos mostra o lado mais cruel da Bíblia, citando trechos que referendam seu discurso.

Às vezes, não temos consciência de que há uma força maior guiando nossos atos, de que somos parte de uma engrenagem que opera no sentido de massacrar os desajustados, as minorias, os párias da sociedade. Em grupo, como um rebanho, diluímos a responsabilidade a zero por nossos atos cruéis, que praticamos por vontade divina. Cada um com seu disfarce, posamos como santos na superfície de uma terra contaminada.

4 comentários

  1. Fala Magrolino?! Te liguei agora pouco para falar sobre a série. Acabei de assistir ontem e gostei demais. Há tempos não assistia algo que me intrigasse do começo ao fim. Sua leitura da série é perfeita. O assustador era a religião em si. Saudades brother!

  2. Sensacional crítica.Com este texto, ficaram claras várias lacunas que senti ao assistir a série,que aliás gostei muito.Matei a saudade do blog.Um abração.

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