Mindhunter: somos todos fascinados por serial killers

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O agente do FBI Holden Ford em Mindhunter, nova série do Netflix

Mindhunter não tem pressa de impressionar o público nos primeiros episódios. Comparada a outras séries, desenvolve-se em banho-maria. É meticulosa, inteligente e construída com esmero: dos diálogos aos enquadramentos e aos movimentos precisos de câmera. É necessário prestar atenção para acompanhar as extensas falas e a lógica de raciocínio dos personagens. É assustadora, sem derramar muito sangue. É macabra mais pelo impacto mental do que pelo espetáculo visual.

Basicamente, dá para resumi-la como um estudo sobre a onda de serial killers que se alastrou pelos Estados Unidos entre as décadas de 1970 e 1980, quando o FBI ainda mal sabia como classificá-los. Mas, a meu ver, instiga também por outro ângulo: a fascinação da cultura ocidental por esse tipo de criminoso — filmes como O Silêncio dos Inocentes, Seven, Henry – O Retrato de um Assassino e séries (Criminal Minds, True Detective, The Fall, Hannibal) comprovam esse interesse.

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Acontece que o foco, em Mindhunter, está mais na cabeça dos criminosos e na maneira como eles são tratados e menos nas engenhosas concepções dos crimes. Aí já temos uma abordagem original. A série, cuja primeira temporada estreou no Netflix neste mês, foi criada por Joe Penhall, responsável por roteirizar para os cinemas o livro A Estrada, de Cormac McCarthy, e tem entre seus diretores o genial David Fincher. A escolha não pode ser mais acertada! Com certeza, Fincher sentiu-se em casa nessa função, já que esteve à frente de dois dos melhores filmes do gênero: Seven e Zodíaco.

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Bill Tench e Wendy Carr, da unidade de ciência comportamental do FBI

Nos dez episódios que compõem a primeira temporada, a gente acompanha a rotina de um agente especial do FBI, Holden Ford (interpretado pelo ator Jonathan Groff), que se sente entediado dando aulas monótonas a alunos dispersos e aproveita a oportunidade de se lançar em uma pesquisa sobre o comportamento de criminosos célebres. O desafio deixa o jovem investigador com sangue nos olhos. Seu parceiro nessa missão é o experiente Bill Tench (Holt McCallany), mais desconfiado e resistente sobre os frutos que o trabalho pode gerar. Após os primeiros episódios, a dupla ganha a companhia de Wendy Carr (Anna Torv), cuja principal função é orientá-los e domar com firmeza o ímpeto jovial de Holden.

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O que eles fazem, de fato? Vão até presídios espalhados por diversas cidades dos Estados Unidos para entrevistar serial killers e mergulhar na cabeça deles, tentando extrair dali algum padrão de comportamento que explique os atos tenebrosos cometidos por eles. São criminosos como Edmund Kemper, que matou oito garotas a sangue frio e praticou necrofilia com os corpos; e Jerry Brudos, psicopata aficionado por salto-alto que estrangulou e assassinou pelo menos quatro mulheres. Depois de matá-las, ele tinha o hábito de se masturbar vestido de mulher.

Alguns spoilers de leve abaixo!!

Todos eles, de fato, existiram e ficaram famosos por seus crimes, ainda que a série floreie alguns casos; assim como os agentes Holden, inspirado em John Douglas, e Bill, que dá vida a Robert Ressler, funcionário do FBI que teria criado, nos anos 1970, o termo serial killer. A namorada de Holden, a socióloga com jeito hippie Debbie Mitford (Hannah Gross), vive desafiando suas prerrogativas e teme por seu excesso de envolvimento com o trabalho. Inteligente, ela logo nota que a obsessão do namorado por seu objeto de estudo pode se transformar em algo monstruoso. A relação dos dois, aos poucos, passa de uma leve paixão para uma tensão recorrente. Enquanto isso, Bill tem de lidar com a indiferença de seu filho por ele, cada vez mais afastado do pai.

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Edmund Kemper, o assassino que virou obsessão do FBI

Nos interrogatórios, Holden, antes receoso, começa a avançar o limite do bom senso e da conduta ética, de tão entusiasmado que fica com o mundo complexo, sedutor e lúgubre dos entrevistados. Deixa de seguir o roteiro predeterminado por seus superiores e lança perguntas maliciosas, usando linguagem inapropriada e tentando a qualquer custo escarafunchar o lado obscuro dos criminosos. Aí, começamos a entender o que se passa: não é um mero comprometimento com o trabalho, mas uma adoração por essas pessoas desajustadas. Apesar de se esforçar para coibir seu parceiro, Bill acaba cedendo na maior parte das vezes.

De repente, quem está em foco de atenção, sob análise, não é mais o criminoso, mas quem o julga de louco. A sensação é de que, assim como os espectadores exibem um fascínio quando assistem a um filme de serial killer, à espera de mortes cada vez mais perversas, Holden não consegue mais distinguir a sua real intenção, torna-se parte de uma plateia voraz movida à violência, alimentando seu lado mais sombrio e mergulhando em um inferno.

Há, em Mindhunter, uma narrativa paralela eficiente que se desenrola quando os dois agentes ajudam colegas a solucionar alguns casos nas cidades que visitam, embora o maior interesse esteja na transformação de Holden.

A aparição de um serial killer que trabalha instalando sistemas de segurança em alguns episódios é como se fosse um teaser para a segunda temporada. Afinal, quem é o cara que surge queimando desenhos de mulheres em um latão em chamas?

2 comentários sobre “Mindhunter: somos todos fascinados por serial killers

  1. Gisele Lopes outubro 29, 2017 / 2:56 pm

    Olá! Acabei a série essa semana e adorei, mais do que esperava. Vou aguardar ansiosa pela próxima temporada. E nossa, esperava saber mais do possível serial killer que víamos todo início de episódio, mas acabou ficando para próxima temporada (assim espero), acho que vem algo bem maluco por aí, rs. Ótimo texto!

  2. CELSO MASINI outubro 29, 2017 / 7:40 am

    Nando,um grande abraco Texto instigante,como sempre.

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