O filme que deixou todo mundo de cabelo em pé em Sundance

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Cena de “Hereditary”, exibido pela primeira vez em Sundance

O ano mal começou e um filme, exibido neste mês no Festival de Sundance (EUA), já está cotado para a lista dos mais assustadores de 2018. Trata-se de Hereditary, primeiro longa-metragem do jovem americano Ari Aster, diretor de curtas como o polêmico The Strange Things About the Johnsons. Jornalistas que estão fazendo a cobertura do evento andam empolgados com o que viram.

Patrick Ryan, do jornal USA Today, cravou em sua resenha: “é o filme de terror mais insano dos últimos anos”. O site Thrillist, em texto de Dan Jackson, segue a mesma linha, afirmando ser um dos filmes mais perturbadores que foram lançados recentemente. Crítico da Vanity Fair, Richard Lawson disse que “deixou o cinema se sentindo abalado, esgotado e completamente aliviado”.

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Eu ainda não vi o filme — nem há uma data de estreia definida nos EUA –, mas reproduzo a sinopse que foi divulgada no site do festival para dar uma ideia do enredo. A família Graham começa a desvendar seu passado após a morte da reclusa avó. A sombra de sua presença ainda é sentida na casa, especialmente para sua neta Charlei, com quem mantinha uma relação de fascínio. Alguns incidentes abalam a paz da família, e a mãe é obrigada a lidar com uma herança indesejada.

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O livro oculto de Xerxenesky

 

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O escritor gaúcho Antônio Xerxenesky (Foto: Renato Parada)

Antônio Xerxenesky mergulhou fundo no estudo do ocultismo para escrever o livro As Perguntas, ótimo lançamento de 2017 que, assim como Neve Negra, de Santiago Nazarian, dá fôlego a um gênero moribundo no mercado editorial brasileiro, o terror. Com a ajuda do amigo e mentor Daniel Pellizzari, ele pesquisou textos de Aleister Crowley, Éliphas Lévi, Mircea Eliade e outros tratados sobre paganismo para dar corpo à história de Alina, uma doutoranda em religião que sofre com a visão de sombras e vultos. Para pagar as contas, ela trabalha, quase no piloto automático, como editora de vídeos institucionais em um escritório na região da Avenida Paulista, em São Paulo.

Em entrevista ao blog, Xerxenesky conta que sempre sofreu do mesmo mal de Alina: via, a contragosto, resíduos de sonhos, imagens e sombras. “Essa foi a inspiração autobiográfica do livro. Mas, ao contrário dela, não cogito que isso é algo sobrenatural”, diz o autor, que nasceu em Porto Alegre e mora na capital paulista. As Perguntas é seu terceiro romance. Antes, escreveu Areia nos Dentes (2010) e F (2014), finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, além de dois livros de contos. Ao flertar com gêneros populares, como a ficção científica e o terror, Xerxenesky assume o risco de ser um intruso na festa da literatura brasileira, onde o realismo e o academicismo predominam.

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“A literatura brasileira, de modo geral, quer ser bem vista, quer ganhar prêmios, ser matéria de teses de doutorado, e para isso é preciso trajar um terno completo. O terror nunca usa terno completo. O terror é a roupa esfarrapada. O realismo, um vício da literatura brasileira, pode se tornar uma prisão, e todos meus livros foram tentativas de fugir disso”, afirma.

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“As Perguntas”: terceiro romance de Xerxenesky

No repertório de Xerxenesky, formado em Letras e mestre em Literatura Comparada, cabem tanto filmes italianos de terror dos anos 1970, de diretores como Lucio Fulci e Dario Argento, quanto músicas de bandas de metal experimental, a exemplo de Sunn 0))) e Agalloch. Não nega que cultiva um “fetiche pelas dark arts”. Embora não tenha medo de fantasmas, preocupa-se com a infelicidade de sua geração, que passou dos 30 anos, continua insatisfeita e tenta resolver tudo à base de remédios, e teme o surgimento de um fascismo cultural no Brasil.

Leia a seguir a entrevista que fizemos com o escritor.

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2017: o terror em alta na bilheteria

2017 foi um ano e tanto para os filmes de terror. Segundo reportagem do New York Times, publicada em outubro do ano passado, foi o melhor ano na história do gênero, levando-se em conta a bilheteria e o montante arrecadado nos EUA. Dois fenômenos de público (e crítica, em geral) puxaram a fila: Corra, filme de Jordan Peele que trata de racismo e intolerância, e IT: A Coisa, adaptado da obra de Stephen King.

Apesar do orçamento apertado, o primeiro arrecadou impressionantes 175 milhões de dólares nos EUA, aparecendo, de acordo com a Box Office Mojo, como o 16º filme de maior bilheteria no país. Já IT acaba de entrar de vez para a história: alcançou a marca de 327 milhões de dólares, tornando-se o filme de terror de maior bilheteria de todos os tempos. Produzido pela Warner, o longa terminou o ano na sexta posição entre os filmes mais rentáveis do ano, batendo blockbusters como Meu Malvado Favorito 3, Logan e Thor.

+ Leia a crítica de IT: A Coisa

Somando a bilheteria de todos os lançamentos de terror de 2017, chegamos a um número espetacular: mais de 700 milhões de dólares no mercado doméstico americano, incluindo nessa lista outros títulos que também fizeram bonito, como Fragmentado, de M. Night Shyamalan (138 milhões de dólares), e Annabelle 2: A Criação do Mal (102 milhões).

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Mindhunter: somos todos fascinados por serial killers

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O agente do FBI Holden Ford em Mindhunter, nova série do Netflix

Mindhunter não tem pressa de impressionar o público nos primeiros episódios. Comparada a outras séries, desenvolve-se em banho-maria. É meticulosa, inteligente e construída com esmero: dos diálogos aos enquadramentos e aos movimentos precisos de câmera. É necessário prestar atenção para acompanhar as extensas falas e a lógica de raciocínio dos personagens. É assustadora, sem derramar muito sangue. É macabra mais pelo impacto mental do que pelo espetáculo visual.

Basicamente, dá para resumi-la como um estudo sobre a onda de serial killers que se alastrou pelos Estados Unidos entre as décadas de 1970 e 1980, quando o FBI ainda mal sabia como classificá-los. Mas, a meu ver, instiga também por outro ângulo: a fascinação da cultura ocidental por esse tipo de criminoso — filmes como O Silêncio dos Inocentes, Seven, Henry – O Retrato de um Assassino e séries (Criminal Minds, True Detective, The Fall, Hannibal) comprovam esse interesse.

+ 10 filmes de arrepiar na 41ª Mostra de Cinema de SP

Acontece que o foco, em Mindhunter, está mais na cabeça dos criminosos e na maneira como eles são tratados e menos nas engenhosas concepções dos crimes. Aí já temos uma abordagem original. A série, cuja primeira temporada estreou no Netflix neste mês, foi criada por Joe Penhall, responsável por roteirizar para os cinemas o livro A Estrada, de Cormac McCarthy, e tem entre seus diretores o genial David Fincher. A escolha não pode ser mais acertada! Com certeza, Fincher sentiu-se em casa nessa função, já que esteve à frente de dois dos melhores filmes do gênero: Seven e Zodíaco.

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10 filmes de arrepiar na 41ª Mostra

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As Boas Maneiras, filme brasileiro premiado no Rio e em Locarno

Em uma seleção de mais de 400 filmes, a 41ª Mostra de Cinema de São Paulo, que ocorre na capital paulista de 19 de outubro a 1º de novembro, não lançou um olhar tão cuidadoso aos filmes de terror. Foi difícil escolher — como você pode ver abaixo — uma dezena de obras dedicadas ao gênero. Não vi todas, mas seguem minhas apostas.

Os horários e salas podem ser vistos no site da 41ª Mostra.

+ O sadismo de Aronofsky em Mother! 

1. As Boas Maneiras, de Juliana Rojas e Marco Dutra (Brasil)
Mais um tiro certo da dupla Juliana Rojas e Marco Dutra, de Trabalhar Cansa. Premiado no Festival de Locarno e no Festival do Rio, o filme narra em tom fantástico a relação entre Clara, uma solitária enfermeira que vive na periferia de São Paulo, e a rica e misteriosa Ana, que a contrata para ser babá de sua criança.

2. Corvos, de Jens Assur (Suécia)
Um fazendeiro está determinado a fazer seu filho assumir a propriedade e, assim, continuar o seu legado. A mãe faz de tudo para manter a família unida, enquanto, cada vez mais aterrorizado, o filho testemunha o comportamento psicótico do pai.

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Cena do filme sueco Corvos

3. Estrangulado, de Árpád Sopsits (Hungria)
Na Hungria socialista dos anos 1960, uma série de assassinatos ocorre na pequena cidade de Martfű. Enquanto um assassino continua à solta matando jovens mulheres, um homem é acusado e sentenciado injustamente por crimes que nunca poderia ter cometido.

4. Eutanásia, de Teemu Nikki (Finlândia)
Um mecânico de meia-idade tem como segundo emprego o sacrifício de animais domésticos. Ele é contratado por um homem para matar seu cão que, segundo ele, está doente.

5. Irmãos de Inverno, de Hlynur Pálmason (Dinamarca/Islândia)
O filme conta a história de dois irmãos durante um rigoroso inverno. Suas rotinas, seus hábitos, rituais e uma violenta disputa com outra família são vistos pelo olhar de Emil, o irmão mais novo.

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Cena da produção dinamarquesa Irmãos de Inverno

6. O Estrangulador, de Paul Vecchiali (França)
O diretor Paul Vecchiali é um dos homenageadas desta edição do festival. Neste filme, de 1970, ele aborda a vida de um serial killer fetichista que mata mulheres que aparentam estar infelizes. Com isso, ele acredita que realiza um ato de bondade.

7. O Vale das Sombras, de Jonas Matzow Gulbrandsen (Noruega)
Depois de ver três ovelhas mortas e devoradas pela metade em uma noite de lua cheia, o garoto Aslak, que vive em uma vila nas montanhas da Noruega, aventura-se por dentro desse ameaçador local.

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Vale das Sombras: nas montanhas da Noruega

8. Outrage Koda, de Takeshi Kitano (Japão)
Mestre dos filmes de yakuza, a máfia japonesa, Kitano mostra os conflitos entre duas famílias que lutam pelo poder. Esta é a terceira parte da trilogia composta de O Ultraje e Outrage: Beyond.

9. Scary Mother, de Ana Urushadze (Geórgia/Estônia)
Manana, uma dona de casa de 50 anos, se vê diante de um dilema. Ela precisa escolher entre a vida em família ou o seu amor pela escrita, atividade que reprime há anos. Manana decide seguir sua paixão, mergulhando em um sacrifício físico e mental.

10. Vigilia, de Julieta Ledesma (Argentina)
Santiago acorda no meio do deserto e vai até a casa do pai, que o recebe apontando uma arma. Ernesto decide sacrificar Arón, o cachorro, mas aparições fantasmagóricas abalam as bases da família.

O sadismo de Darren Aronofsky em Mãe! beira o insuportável

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Jennifer Lawrence e Javier Bardem: a mãe-natureza e o pai de todos

Darren Aronofsky deve ter prazer em torturar o público, assim como deve sentir satisfação em maltratar suas atrizes. Foi assim em Réquiem para um Sonho (2000), cuja vítima foi Ellen Burstyn, depois em Cisne Negro (2010), com Natalie Portman, e, agora, Jennifer Lawrence enfrenta semelhante calvário em Mãe!, novo filme do diretor americano. Com tantos exemplos, um seguido do outro, fica difícil refutar sua veia sádica. Já a experiência do espectador é testada ao limite, como se ele desafiasse a plateia a fim de ver quantas pessoas deixarão a sala com enjoo antes do fim da projeção.

Não é uma estratégia nova, evidentemente. Suscitar polêmica é uma ferramenta muito útil para levar pessoas ao cinema, mesmo que elas saiam no meio do filme ou vaiem no final. O gênero de terror se move dessa maneira, expandindo os limites do absurdo e aumentando o nível de provocação. Imagino que um diretor deva achar ótimo quando alguém passa mal vendo seu filme, e a notícia circula pelo mundo todo. Isso desperta a curiosidade mórbida intrínseca do ser humano.

+ IT – A Coisa: o medo em seu estado mais primitivo

Foi o que rolou com Mãe!. No Festival de Toronto, no Canadá, onde foi exibido antes de estrear, parte do público vaiou após a sessão, enquanto outra parte, aplaudiu. Todos, no entanto, saíram chocados do cinema. Aronofsky conseguiu, mais uma vez, o que desejava: botar sua história na boca da mídia e do povo para garantir bilheteria.

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Jennifer Lawrence: um calvário nas mãos de Aronofsky

A polêmica gira em torno da reinterpretação que o cineasta se propõe, bem à sua maneira radical , do Gênesis, narrando em uma espécie de alegoria a criação do mundo e os primeiros pecados. Jennifer Lawrence é uma jovem que se dedica a cuidar da casa e  do marido, o escritor e poeta Javier Bardem, que passa por um bloqueio criativo. (Os personagens não têm nome no filme). Eles moram em uma casa isolada, perto de um bosque, que foi destruída por um incêndio e reconstruída cômodo a cômodo graças ao esforço dela.

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O fenômeno IT – A Coisa: o medo em seu estado mais primitivo

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O palhaço Pennywise está de volta em IT – A Coisa

O novo IT – A Coisa, adaptação do livro que Stephen King escreveu em 1986, funciona mais como aventura juvenil do que como filme de terror. A gente assusta, sim, mas a graça está mais na cumplicidade de uma turma de amigos rejeitada pelos colegas de classe. É aquela sensação que nos dá ao assistir, por exemplo, à série Stranger Things ou ao longa Super 8. Spielberg explora muito bem esse clima ao retratar em alguns de seus trabalhos jovens nerds desajustados e incompreendidos. Nos identificamos facilmente (e torcemos) pelos personagens porque são vítimas de um sistema adulto sacana.

O medo é o grande tema do filme. Ele dá força ao palhaço macabro Pennywise — quanto mais suas vítimas temem, mais ele se fortalece — e torna-se um desafio a ser superado ao longo da projeção. O medo também está dentro de casa, na relação doméstica. O pai de Beverlly (interpretada pela atriz Sophia Lillis), por exemplo, exige a pureza da filha ao mesmo tempo em que lança olhares lascivos para ela. Já a mãe de Eddie (Jack Dylan) protege tanto o filho que acaba fazendo dele um fracote com mania de doenças.

+ The Night of: quando o sistema te engole e você vira um monstro

Nesse sentido, o mérito da história vai mais para quem a criou, o mestre do terror de entretenimento Stephen King. O autor ajudou, em boa parte, com a reação dupla, entre o engraçado e o macabro, que temos quando estamos diante de um palhaço. No filme, Pennywise (um trabalho muito bom do ator Bill Skarsgard) assusta com seu olhar de louco, a voz suave e rouca, os dentes de tubarão e os movimentos cômicos e sinistros em um corpo possuído. Mais possuído que o Bozo depois de cheirar uma carreira (também em cartaz no filme Bingo).

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Neve Negra, de Santiago Nazarian – o trevoso da literatura nacional

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“Neve Negra”, o lançamento mais recente do escritor Santiago Nazarian

O escritor Santiago Nazarian já foi mais bizarro, histriônico, intenso, mais adolescente. Tanto na sua escrita quanto no seu comportamento. Hoje, imagino, ele deve estar na casa dos 40 anos. Também imagino que a idade tenha lhe trazido serenidade, uma visão mais distante do mundo, menos afoita. É o que deduzo depois de ler Neve Negra, seu mais recente romance e nono livro, uma boa história de terror que não se limita a entreter, mas vai além: toca em temas como paternidade, o papel do artista no mundo e o casamento.

Li suas primeiras obras — Mastigando Humanos, A Morte sem Nome — e sempre admirei sua coragem de fazer algo diferente, de arriscar novos formatos, de repetir as frases, de botar um monte de bicho como personagem, de sangrar na hora de escrever, de fazer uma literatura mais dark. Antes, era tudo visceral, com os excessos típicos da juventude. Se não estou errado, Nazarian começou a escrever bem jovem. Hoje, depois de terminar Neve Negra, senti que as sentenças estão mais bem pensadas. O que é bom, a meu ver. Nem sempre descarregar tudo de uma vez funciona como a gente deseja.

+ Já ouviu falar em immersive horror?

Neve Negra é costurado como filme de terror. Bruno, o protagonista, é um artista radicado na Europa que está de volta à casa da esposa e do filho pequeno, em uma cidade (creio que inventada) gelada de Santa Catarina, estado natal de Nazarian. Por causa de sua carreira bem-sucedida no exterior, ele é um pai ausente. Bruno chega em casa, depois de uma viagem de avião na classe executiva, pega um copo de uísque, prepara comida na cozinha e vai ver o filho no quarto. É tarde e está nevando lá fora.

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