Sinfonia da Necrópole é um caso estranho no cinema nacional

 

Deodato e Jaqueline em Sinfonia da Necrópole: verticalizando o cemitério
Deodato e Jaqueline em Sinfonia da Necrópole: verticalizando o cemitério

É preciso reconhecer a coragem de Juliana Rojas ao dirigir Sinfonia da Necrópole, que estreou na quinta (14). Trata-se de um filme estranho, difícil de posicionar nos rótulos dos gêneros e muito original. Destaca-se, portanto, da indústria de repetições tediosas que se tornou o nosso cinema. Isso é bom! Juliana entrega ao público uma comédia musical meio mambembe com toques de terror. Pode ser encarado também como um filme de terror com pitadas de humor.

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A história basicamente se passa dentro de um cemitério em São Paulo, sendo que a maior parte das cenas foi rodada no Cemitério do Araçá, aquele da Avenida Doutor Arnaldo. Deodato (interpretado pelo ator Eduardo Gomes, mais conhecido por trabalhos no teatro) é um aprendiz de coveiro medroso e muito sensível para o ofício. Ele trabalha na companhia de Jaqueline (Juliana Paes, da Cia Hiato), a nova funcionária e sua chefe, responsável por reorganizar os túmulos e implantar um projeto de verticalização no local, eliminando covas abandonadas e liberando espaço para novas.

Quem comanda o cemitério é Aloízio (Hugo Villavicenzio), prático e cômico com seu sotaque portunhol enquanto tenta preparar Deodato para conviver melhor com os mortos. Entre um susto e outro, Deodato começa a se sentir atraído por Jaqueline, mesmo com o jeito prático e, às vezes, brucutu da moça. Mais ou menos um Eduardo e Mônica. Os dois formam uma boa parceira e se lançam ao trabalho de recadastrar ossadas e visitar parentes dos mortos.

Sinfonia da Necrópole: um medroso entre os coveiros
Sinfonia da Necrópole: um medroso entre os coveiros

Fica nítido que Juliana quer tratar com o filme da especulação imobiliária que atinge as metrópoles, inclusive dando as cartas nos locais mais sagrados, a exemplo de um cemitério. Mas há também, como acontece no seu filme anterior Trabalhar Cansa (2011), codirigido com Marco Dutra, uma reflexão sobre a relação entre patrão e empregado. Juliana falou em entrevistas que sua influência vai de Brecht, o dramaturgo alemão expoente do teatro épico, aos musicais da Disney. Sim, de fato, tudo isso está presente em Sinfonia da Necrópole. Há crítica social, canções e uma mistura de gêneros.

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Numa das cenas mais engraçadas, a dona da barraca de flores, bem comum naquela região, discute com um dos funcionários que gostaria de modernizar a inscrição que vai impressa na coroa de flores. Em outra, Aloízio reclama com Deodato da movimentação dos góticos pelo local durante a madrugada.

Este é mais um longa-metragem do coletivo paulistano Filmes do Caixote, formado em 2006 por cineastas como Juliana Rojas, Marco Dutra e Caetano Gotardo, que tem feito um trabalho bem interessante e original nos últimos anos. Sempre dando um jeito de inserir o terror nas suas produções. São deles este Sinfonia da Necrópole, o premiado Trabalhar Cansa (2011), Quando Eu Era Vivo (2012) e O que se Move (2013).

PS: Diferentemente dos lançamentos de filmes em multiplex, dentro de shoppings, a pré-estreia do filme foi realizada numa noite muito agradável na Cinemateca paulistana, numa sessão ao ar livre. Depois da projeção, os atores interpretaram ao vivo, com banda, as músicas do filme. Foi muito legal!

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