A Forma da Água: uma fantasia bonita, verde e sem graça

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Sally Hawkins em “A Forma da Água”, de Guillermo del Toro

Até entendo que a ideia do mexicano Guillermo del Toro tenha sido, em A Forma da Água, fazer uma homenagem ou desenterrar o cinema de gênero americano, fazendo alusão a filmes de monstro, gângster, aos musicais e melodramas do passado, mas o que resta dessa sacada inicial? Muito pouco!

Assim como La La Land e O Artista, para citar exemplos recentes, desenvolver uma história aos moldes de como elas eram contadas nas primeiras décadas do cinema não garante, por si só, seu êxito. Os críticos e especialistas, em geral, adoram essa artimanha porque eles veneram a indústria do cinema, é claro, mas também ficam felizes como crianças ao encontrar referências a outros filmes escondidas em uma obra. Quando notam, não veem a hora de compartilhar sua sabedoria com seus pares.

+ O filme que atormentou a plateia em Sundance

Para mim, a questão em A Forma da Água é muito simples: o filme não me emocionou. As atuações, mesmo a de Sally Hawkins como a ajudante de limpeza muda que se apaixona por um homem-peixe maltratado em um laboratório, são fracas, carregam com muito custo os personagens nas costas.

Ao sair do cinema, é verdade que vi gente rindo bastante e outras pessoas chorando. Embora tenha visto também espectadores putos da vida, decepcionados por uma trama bobinha que ganhou 13 indicações ao Oscar deste ano.

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O filme que deixou todo mundo de cabelo em pé em Sundance

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Cena de “Hereditary”, exibido pela primeira vez em Sundance

O ano mal começou e um filme, exibido neste mês no Festival de Sundance (EUA), já está cotado para a lista dos mais assustadores de 2018. Trata-se de Hereditary, primeiro longa-metragem do jovem americano Ari Aster, diretor de curtas como o polêmico The Strange Things About the Johnsons. Jornalistas que estão fazendo a cobertura do evento andam empolgados com o que viram.

Patrick Ryan, do jornal USA Today, cravou em sua resenha: “é o filme de terror mais insano dos últimos anos”. O site Thrillist, em texto de Dan Jackson, segue a mesma linha, afirmando ser um dos filmes mais perturbadores que foram lançados recentemente. Crítico da Vanity Fair, Richard Lawson disse que “deixou o cinema se sentindo abalado, esgotado e completamente aliviado”.

+ Os filmes de terror que levaram o Oscar

Eu ainda não vi o filme — nem há uma data de estreia definida nos EUA –, mas reproduzo a sinopse que foi divulgada no site do festival para dar uma ideia do enredo. A família Graham começa a desvendar seu passado após a morte da reclusa avó. A sombra de sua presença ainda é sentida na casa, especialmente para sua neta Charlei, com quem mantinha uma relação de fascínio. Alguns incidentes abalam a paz da família, e a mãe é obrigada a lidar com uma herança indesejada.

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2017: o terror em alta na bilheteria

2017 foi um ano e tanto para os filmes de terror. Segundo reportagem do New York Times, publicada em outubro do ano passado, foi o melhor ano na história do gênero, levando-se em conta a bilheteria e o montante arrecadado nos EUA. Dois fenômenos de público (e crítica, em geral) puxaram a fila: Corra, filme de Jordan Peele que trata de racismo e intolerância, e IT: A Coisa, adaptado da obra de Stephen King.

Apesar do orçamento apertado, o primeiro arrecadou impressionantes 175 milhões de dólares nos EUA, aparecendo, de acordo com a Box Office Mojo, como o 16º filme de maior bilheteria no país. Já IT acaba de entrar de vez para a história: alcançou a marca de 327 milhões de dólares, tornando-se o filme de terror de maior bilheteria de todos os tempos. Produzido pela Warner, o longa terminou o ano na sexta posição entre os filmes mais rentáveis do ano, batendo blockbusters como Meu Malvado Favorito 3, Logan e Thor.

+ Leia a crítica de IT: A Coisa

Somando a bilheteria de todos os lançamentos de terror de 2017, chegamos a um número espetacular: mais de 700 milhões de dólares no mercado doméstico americano, incluindo nessa lista outros títulos que também fizeram bonito, como Fragmentado, de M. Night Shyamalan (138 milhões de dólares), e Annabelle 2: A Criação do Mal (102 milhões).

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10 filmes de arrepiar na 41ª Mostra

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As Boas Maneiras, filme brasileiro premiado no Rio e em Locarno

Em uma seleção de mais de 400 filmes, a 41ª Mostra de Cinema de São Paulo, que ocorre na capital paulista de 19 de outubro a 1º de novembro, não lançou um olhar tão cuidadoso aos filmes de terror. Foi difícil escolher — como você pode ver abaixo — uma dezena de obras dedicadas ao gênero. Não vi todas, mas seguem minhas apostas.

Os horários e salas podem ser vistos no site da 41ª Mostra.

+ O sadismo de Aronofsky em Mother! 

1. As Boas Maneiras, de Juliana Rojas e Marco Dutra (Brasil)
Mais um tiro certo da dupla Juliana Rojas e Marco Dutra, de Trabalhar Cansa. Premiado no Festival de Locarno e no Festival do Rio, o filme narra em tom fantástico a relação entre Clara, uma solitária enfermeira que vive na periferia de São Paulo, e a rica e misteriosa Ana, que a contrata para ser babá de sua criança.

2. Corvos, de Jens Assur (Suécia)
Um fazendeiro está determinado a fazer seu filho assumir a propriedade e, assim, continuar o seu legado. A mãe faz de tudo para manter a família unida, enquanto, cada vez mais aterrorizado, o filho testemunha o comportamento psicótico do pai.

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Cena do filme sueco Corvos

3. Estrangulado, de Árpád Sopsits (Hungria)
Na Hungria socialista dos anos 1960, uma série de assassinatos ocorre na pequena cidade de Martfű. Enquanto um assassino continua à solta matando jovens mulheres, um homem é acusado e sentenciado injustamente por crimes que nunca poderia ter cometido.

4. Eutanásia, de Teemu Nikki (Finlândia)
Um mecânico de meia-idade tem como segundo emprego o sacrifício de animais domésticos. Ele é contratado por um homem para matar seu cão que, segundo ele, está doente.

5. Irmãos de Inverno, de Hlynur Pálmason (Dinamarca/Islândia)
O filme conta a história de dois irmãos durante um rigoroso inverno. Suas rotinas, seus hábitos, rituais e uma violenta disputa com outra família são vistos pelo olhar de Emil, o irmão mais novo.

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Cena da produção dinamarquesa Irmãos de Inverno

6. O Estrangulador, de Paul Vecchiali (França)
O diretor Paul Vecchiali é um dos homenageadas desta edição do festival. Neste filme, de 1970, ele aborda a vida de um serial killer fetichista que mata mulheres que aparentam estar infelizes. Com isso, ele acredita que realiza um ato de bondade.

7. O Vale das Sombras, de Jonas Matzow Gulbrandsen (Noruega)
Depois de ver três ovelhas mortas e devoradas pela metade em uma noite de lua cheia, o garoto Aslak, que vive em uma vila nas montanhas da Noruega, aventura-se por dentro desse ameaçador local.

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Vale das Sombras: nas montanhas da Noruega

8. Outrage Koda, de Takeshi Kitano (Japão)
Mestre dos filmes de yakuza, a máfia japonesa, Kitano mostra os conflitos entre duas famílias que lutam pelo poder. Esta é a terceira parte da trilogia composta de O Ultraje e Outrage: Beyond.

9. Scary Mother, de Ana Urushadze (Geórgia/Estônia)
Manana, uma dona de casa de 50 anos, se vê diante de um dilema. Ela precisa escolher entre a vida em família ou o seu amor pela escrita, atividade que reprime há anos. Manana decide seguir sua paixão, mergulhando em um sacrifício físico e mental.

10. Vigilia, de Julieta Ledesma (Argentina)
Santiago acorda no meio do deserto e vai até a casa do pai, que o recebe apontando uma arma. Ernesto decide sacrificar Arón, o cachorro, mas aparições fantasmagóricas abalam as bases da família.

13 fatos curiosos que explicam o temor pela Sexta-Feira 13

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Algumas curiosidades que ajudam a explicar a superstição de que hoje não é um bom dia para sair de casa.

  1. De acordo com os escritos bíblicos, a crucificação de Jesus Cristo, uma das passagens mais importantes aos cristãos, ocorreu em uma sexta-feira 13.
  2. O escritor inglês Geoffrey Chaucer, morto em 1400, já alertava em seus famosos Contos de Canterbury sobre os perigos de iniciar uma viagem ou projeto em uma sexta-feira. Segundo ele, trazia azar.
  3. Em 13 de outubro de 1307, uma sexta-feira, centenas de Cavaleiros do Templário, que faziam parte de uma sociedade medieval, foram capturados e queimados na França.
  4. Ao incluir esse episódio no livro O Código da Vinci, o escritor Dan Brown sugere que o temor pelo número 13 teria nascido dessa maneira.
  5. Na Última Ceia, Judas Iscariotes teria sentado no 13º lugar da mesa onde estava Jesus Cristo e seus outros discípulos. Isso teria associado um valor negativo ao número na cultura ocidental.
  6. A data também pode ter a ver com a criação do Clube dos Treze (The Thirteen Club). Em 1880, essa organização pretendia justamente desvalorizar essa crença acerca do número 13. Acreditava-se que quando 13 pessoas se sentavam em uma mesa, uma delas morreria em um ano.
  7. Em 1907, o empresário e autor americano Thomas W. Lawson (1857-1925), que era muito supersticioso, lançou o livro Friday the Thirteenth, o que teria reforçado essa crença.
  8. Na sexta-feira de 13 de setembro de 1940, o Buckingham Palace foi atingido por cinco bombas alemãs durante a Segunda Guerra Mundial.
  9. Alguns historiadores acreditam que foi nesse dia que Eva mordeu o fruto proibido.
  10. O filme Sexta-Feira 13, cuja primeira versão foi lançada em 1980, ajudou a popularizar o mito ao contar a história de um serial killer, Jason, que aterroriza um acampamento.
  11. O famoso desaparecimento de um avião chileno nos Andes, no qual os sobreviventes tiveram de comer carne humana para evitar a morte, aconteceu em 13 de outubro de 1972, uma sexta-feira.
  12. Em 1976, um homem estava tão amedrontado com a possibilidade de acontecer uma tragédia na data que permaneceu o dia todo em sua cama. Mesmo assim, ele morreu após o chão de seu apartamento ruir inesperadamente.
  13. Em 2010, um raio atingiu e matou um garoto inglês de 13 anos. Adivinha o horário? Às 13h13.

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O sadismo de Darren Aronofsky em Mãe! beira o insuportável

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Jennifer Lawrence e Javier Bardem: a mãe-natureza e o pai de todos

Darren Aronofsky deve ter prazer em torturar o público, assim como deve sentir satisfação em maltratar suas atrizes. Foi assim em Réquiem para um Sonho (2000), cuja vítima foi Ellen Burstyn, depois em Cisne Negro (2010), com Natalie Portman, e, agora, Jennifer Lawrence enfrenta semelhante calvário em Mãe!, novo filme do diretor americano. Com tantos exemplos, um seguido do outro, fica difícil refutar sua veia sádica. Já a experiência do espectador é testada ao limite, como se ele desafiasse a plateia a fim de ver quantas pessoas deixarão a sala com enjoo antes do fim da projeção.

Não é uma estratégia nova, evidentemente. Suscitar polêmica é uma ferramenta muito útil para levar pessoas ao cinema, mesmo que elas saiam no meio do filme ou vaiem no final. O gênero de terror se move dessa maneira, expandindo os limites do absurdo e aumentando o nível de provocação. Imagino que um diretor deva achar ótimo quando alguém passa mal vendo seu filme, e a notícia circula pelo mundo todo. Isso desperta a curiosidade mórbida intrínseca do ser humano.

+ IT – A Coisa: o medo em seu estado mais primitivo

Foi o que rolou com Mãe!. No Festival de Toronto, no Canadá, onde foi exibido antes de estrear, parte do público vaiou após a sessão, enquanto outra parte, aplaudiu. Todos, no entanto, saíram chocados do cinema. Aronofsky conseguiu, mais uma vez, o que desejava: botar sua história na boca da mídia e do povo para garantir bilheteria.

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Jennifer Lawrence: um calvário nas mãos de Aronofsky

A polêmica gira em torno da reinterpretação que o cineasta se propõe, bem à sua maneira radical , do Gênesis, narrando em uma espécie de alegoria a criação do mundo e os primeiros pecados. Jennifer Lawrence é uma jovem que se dedica a cuidar da casa e  do marido, o escritor e poeta Javier Bardem, que passa por um bloqueio criativo. (Os personagens não têm nome no filme). Eles moram em uma casa isolada, perto de um bosque, que foi destruída por um incêndio e reconstruída cômodo a cômodo graças ao esforço dela.

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O fenômeno IT – A Coisa: o medo em seu estado mais primitivo

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O palhaço Pennywise está de volta em IT – A Coisa

O novo IT – A Coisa, adaptação do livro que Stephen King escreveu em 1986, funciona mais como aventura juvenil do que como filme de terror. A gente assusta, sim, mas a graça está mais na cumplicidade de uma turma de amigos rejeitada pelos colegas de classe. É aquela sensação que nos dá ao assistir, por exemplo, à série Stranger Things ou ao longa Super 8. Spielberg explora muito bem esse clima ao retratar em alguns de seus trabalhos jovens nerds desajustados e incompreendidos. Nos identificamos facilmente (e torcemos) pelos personagens porque são vítimas de um sistema adulto sacana.

O medo é o grande tema do filme. Ele dá força ao palhaço macabro Pennywise — quanto mais suas vítimas temem, mais ele se fortalece — e torna-se um desafio a ser superado ao longo da projeção. O medo também está dentro de casa, na relação doméstica. O pai de Beverlly (interpretada pela atriz Sophia Lillis), por exemplo, exige a pureza da filha ao mesmo tempo em que lança olhares lascivos para ela. Já a mãe de Eddie (Jack Dylan) protege tanto o filho que acaba fazendo dele um fracote com mania de doenças.

+ The Night of: quando o sistema te engole e você vira um monstro

Nesse sentido, o mérito da história vai mais para quem a criou, o mestre do terror de entretenimento Stephen King. O autor ajudou, em boa parte, com a reação dupla, entre o engraçado e o macabro, que temos quando estamos diante de um palhaço. No filme, Pennywise (um trabalho muito bom do ator Bill Skarsgard) assusta com seu olhar de louco, a voz suave e rouca, os dentes de tubarão e os movimentos cômicos e sinistros em um corpo possuído. Mais possuído que o Bozo depois de cheirar uma carreira (também em cartaz no filme Bingo).

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Calma, Shyamalan, não vai cair na mesma cilada de sempre

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James McAvoy em “Fragmentado”, novo filme de M. Night Shyamalan

M. Night Shyamalan deve lutar contra um estigma dentro de si. Depois do sucesso precoce de O Sexto Sentido, que ele dirigiu quando tinha 29 anos, todo mundo espera algo genial vindo dele (uma reviravolta, uma surpresa à altura de “I see dead people…”). O pior é que ele parece aceitar esse desafio e muitas vezes, na ânsia de elaborar um roteiro mirabolante, as coisas acabam desandando. Calma, Shyamalan, cuidado com essa cilada!

O que vejo de genial, no entanto, neste cineasta indiano que no começo da carreira era tratado como discípulo de Hitchcock é o fato de trabalhar cenas e imagens com o zelo de um costureiro, amarrando as sequências com habilidade e movendo a câmera sempre com um propósito. Menos por ser o “rei do twist”. Quanto à habilidade visual, por outro lado, Shyamalan continua sendo um dos melhores.

+ Santa Clarita Diet: a série da Netflix que zomba dos zumbis

Aí entrei na sala de cinema para ver Fragmentado, seu novo filme que tem dividido opiniões (tenho amigos que amaram e outros que detestaram). Eu não amei, mas gostei justamente pelo que escrevi no parágrafo anterior: Shyamalan é mestre na composição de cenas, trata a câmera como uma ferramenta para hipnotizar o espectador. E consegue.

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