A Forma da Água: uma fantasia bonita, verde e sem graça

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Sally Hawkins em “A Forma da Água”, de Guillermo del Toro

Até entendo que a ideia do mexicano Guillermo del Toro tenha sido, em A Forma da Água, fazer uma homenagem ou desenterrar o cinema de gênero americano, fazendo alusão a filmes de monstro, gângster, aos musicais e melodramas do passado, mas o que resta dessa sacada inicial? Muito pouco!

Assim como La La Land e O Artista, para citar exemplos recentes, desenvolver uma história aos moldes de como elas eram contadas nas primeiras décadas do cinema não garante, por si só, seu êxito. Os críticos e especialistas, em geral, adoram essa artimanha porque eles veneram a indústria do cinema, é claro, mas também ficam felizes como crianças ao encontrar referências a outros filmes escondidas em uma obra. Quando notam, não veem a hora de compartilhar sua sabedoria com seus pares.

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Para mim, a questão em A Forma da Água é muito simples: o filme não me emocionou. As atuações, mesmo a de Sally Hawkins como a ajudante de limpeza muda que se apaixona por um homem-peixe maltratado em um laboratório, são fracas, carregam com muito custo os personagens nas costas.

Ao sair do cinema, é verdade que vi gente rindo bastante e outras pessoas chorando. Embora tenha visto também espectadores putos da vida, decepcionados por uma trama bobinha que ganhou 13 indicações ao Oscar deste ano.

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O romance inusitado de “A Forma da Água”

Não é difícil entender: o Oscar, óbvio, jubila-se quando um filme ressuscita um legado que ele próprio ajudou a construir. É como se fosse uma autorreferência. Por isso, Del Toro ganhou a atenção da Academia.

Agora, em uma análise menos apaixonada, dá para dizer que há pouco — ou nada — de novo em A Forma da Água, um pastiche enfadonho, embora visualmente sofisticado; uma fantasia sem graça, muito distante do brilho de O Labirinto do Fauno (2006), por exemplo, do mesmo Del Toro.

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Antes dele, filmes como E.T. – O Extraterrestre, de Spielberg, ou King Kong, a versão de 2005 dirigida por Peter Jackson, já haviam injetado doses de sentimento e humanismo em criaturas que, nos primórdios do cinema, apenas abominávamos. Ou seja, convidar-nos a olhar de maneira diferente para monstros é uma abordagem ultrapassada.

De positivo, vale destacar o papel das mulheres no desenrolar do enredo, o que se mostra condizente com as transformações do mundo atual, com o empoderamento feminino em meio aos escândalos que afetam a indústria de entretenimento. Isso possivelmente ajudou a direcionar os holofotes para o filme, sem dúvidas.

Ao contrário da postura de mocinha indefesa interpretada pela atriz Julie Adams em O Monstro da Lagoa Negra (1954), de Jack Arnold, que dizem ter sido a principal inspiração de Del Toro, a Elisa (Sally Hawkins) de A Forma da Água não tem nada de vítima: é insolente e provocadora quando trata com seu chefe, esperta na hora de enganar os cientistas do laboratório e fiel a seus sentimentos. Assim como é heroica a atitude de Zelda (Octavia Spencer), uma leal escudeira de Elisa que leva às últimas consequências o plano mirabolante da colega de trabalho.

Em resumo: entrei na sala com a expectativa nas alturas e, contrariado, saí dela como se tivesse tomado um banho de água fria.

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