Hereditário: o melhor terror do ano?

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Toni Collette em “Hereditário” (Divulgação)

Muito tem sido dito sobre Hereditário. Já falaram do filme como “o novo Exorcista”, “o mais aterrorizante dos últimos anos” e por aí vai. Até eu, confesso, fiquei entusiasmado com o burburinho em torno da obra e publiquei um post aqui no momento em que ele foi exibido no Festival de Sundance. É tudo isso mesmo?

Não, não é; mas sim, é um ótimo filme de terror.

Não é inovador a ponto de estabelecer um marco na história do gênero (se bem que só saberemos disso alguns anos mais adiante), mas é tão bem dirigido, interpretado e executado que justifica seu impacto entre os críticos. Repete alguns temas recorrentes do gênero — como luto, espiritismo, possessão demoníaca — mas aborda cada um deles com um toque original. Me interessou mais a hora inicial, de terror slow burn, em que um drama familiar macabro te deixa completamente tenso e curioso, do que o desfecho apoteótico.

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A partir de agora, pode haver um outro spoiler.

Ari Aster é um diretor de 31 anos, com inexpressivos curtas-metragens na bagagem, que parece filmar Hereditário com a mão de um veterano. Extrai o melhor dos atores, cadencia o ritmo do filme com habilidade e é preciso nos movimentos de câmera e enquadramentos. Os zooms vagarosos e os planos trabalhados com o esmero de um artista meticuloso (assim como é o trabalho de construção de maquetes da protagonista da trama, Annie) dão um tom de arte ao resultado.

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Drama familiar com toques sobrenaturais

Se tem uma coisa que vale a pena você deixar a sua casa e ir ao cinema é a atuação estupenda da atriz australiana Toni Collette no papel de Annie. Ela já foi indicada ao Oscar na categoria de atriz coadjuvante por O Sexto Sentido (1999) e merece mais uma chance por Hereditário. Annie é casada com Steve (Gabriel Byrne) e tem dois filhos: a introvertida e macabra Charlie (Milly Shapiro) e o indiferente e blasé Peter (Alex Wolff). O filme começa com a morte e o funeral da mãe de Annie, uma matriarca cheia de segredos que nutria um carinho especial por Charlie. Em seu discurso a familiares, Annie deixa clara a frieza do relacionamento com sua mãe. Charlie, que adora comer barras de chocolate e desenhar figuras sinistras no caderno, é a que mais sente a perda da avó. Ela pergunta para a mãe: “E agora, quem vai cuidar de mim?”

A primeira hora, como disse, se desenrola como um drama familiar: todos que moram na casa (ao estilo casarão mal-assombrado) sentem o peso do luto e descobrem, aos poucos, alguns mistérios que envolviam a vida da matriarca. Em caixas cheias de papéis, Annie encontra livros de espiritismo e documentos obscuros. Para tentar se livrar do luto, ela se concentra no trabalho meticuloso de construção de maquetes baseadas em situações reais. Por exemplo, uma de suas reproduções é o filho dormindo em seu quarto ou sua mãe entrando na porta de um dos cômodos da casa.

Aqui, Aster faz um paralelo interessante entre seu próprio trabalho como cineasta, construindo as cenas do filme e manipulando situações, e o ofício de Annie, que também desenha os fatos a seu modo. Os dois estão no controle do que estamos vendo e, em vários momentos, a plateia não distingue se está diante de uma maquete ou, de fato, assistindo a uma cena do filme.

Enquanto Peter fuma maconha com os amigos do colégio e se mostra indiferente ao rumo das coisas, Charlie, cada vez mais, exibe um comportamento bizarro e dá sinais de manter algum tipo de relação obscura com a avó morta. Annie busca ajuda em terapias de grupo, a princípio, e depois em sessões espíritas. Seu marido, Steve, é mais cético e tenta servir como âncora para a família não se desmoronar de vez.

Aos poucos, detalhes que deixam a plateia intrigada vão sendo revelados. Temos a mistura eficaz de um terror psicológico com elementos sobrenaturais. Táticas simples, como o hábito de Charlie estalar a boca de forma inocente e assustadora, têm a força do assovio que virou marca registrada do assassino de M, o Vampiro de Düsseldorf. Com certeza, você vai sair da sala e ver alguém imitando a personagem! Outras são menos autênticas, a exemplo dos copos que se mexem na mesa, dos desenhos que aparecem sem explicação no caderno de Charlie e de aparições de fantasmas no fundo da cena.

Só que tudo funciona muito bem em Hereditário. Se cinema de terror tem muito de clima, Aster fez muito bem a lição de casa. Algumas cenas podem virar sequências antológicas do gênero e certamente foram trabalhadas para isso. Descartaria, por outro lado, parte dos minutos finais: espalhafatosos, confusos e desnecessários.

 

 

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