Nós: o que está por trás do espelho no filme do momento

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Adelaide em Nós, de Jordan Peele

Não é fácil misturar terror, comédia e drama social em um filme como fez Jordan Peele em Nós. Mais difícil ainda é combinar tudo isso sem cair no ridículo. E não é que o diretor americano mais badalado do momento conseguiu. Nós dá frio na barriga, te faz pensar e garante algumas boas risadas. Depois de sair do cinema, a sensação é de que nesse turbilhão de informação a gente sai perdendo alguma coisa.

Nós é feito por um cara apaixonado por filmes de terror — isso é notável pelas referências a clássicos dos anos 1970 e 1980 como Tubarão e O Iluminado, assim como M. Night Shyamalan. Aliás, o talento precoce desses dos dois astros do terror foram comparados, no início de carreira, ao de Spielberg e Hitchcock.

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Os dois se assemelham por reinventar o gênero bebendo na fonte dos clássicos e por ter um controle excepcional da história, da câmera, dos cortes, deixando o público na palma de suas mãos.

Há tempo não via uma plateia tão engajada — gritando, torcendo e se escondendo — com um filme no cinema. Tá certo que era uma sessão de domingo lotada de adolescentes histéricos, mas é um sinal claro do poder do filme.

Cena do filme Us
Cena do filme Nós

Mas, além do entretenimento que Jordan Peele proporciona em Nós e um desfecho surpreendente, vem junto uma reflexão intricada sobre segregação, abandono, hipocrisia e, sobretudo, o lado oculto dos americanos.

A história corre em dois períodos distintos. Primeiro, acompanhamos a pequena Adelaide Wilson se divertindo com a família em um parque de diversões à beira da praia, até ela se perder de todos e entrar em uma sala de espelhos, onde passa por uma experiência reveladora. Depois de um pulo no tempo, Adelaide (agora interpretada pela genial Lupita Nyong’o) é mãe de dois filhos e está a caminho de uma viagem para Santa Cruz, na Califórnia, onde vai curtir as férias.

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Esta é a base da história. Daqui pra frente, avanço na trama com alguns spoilers. Para quem já viu o filme, discuto mais adiante o que entendo sobre a metáfora proposta por Peele.

Na praia, Adelaide parece incomodada com lembranças dolorosas do passado. Não se sente à vontade ao lado da amiga Kitty Tyler (Elisabeth Moss). Quando seu filho (Evan Alex) desaparece de sua vista, impactado pela imagem de um homem sinistro com a mão pingando sangue, ela se desespera e dá uma bronca no menino.

Lupita Nyong'o em cena do filme Us, de Jordan Peele
Lupita Nyong’o em cena do filme Nós, de Jordan Peele

A família vai para a casa de praia e ali começa a tormenta. Uma outra família, idêntica a eles, mas vestida com macacões vermelhos como o Slipknot, invade o ambiente e acaba com o clima de festa. O filme dá uma guinada e, até a última cena, corre como um pesadelo. Cada integrante é perseguido por sua própria cópia e aí começamos a pensar: o que Peele quer dizer com tudo isso?

Que por trás de uma aparência bondosa sempre existe um lado malévolo?

Que escondemos fantasmas dentro de nós?

Que morremos de medo do outro?

A figura do coelho, recorrente em várias cenas do filme, além de fazer alusão a Alice no País das Maravilhas, é também simbólica por representar um olhar traiçoeiro: ao mesmo tempo puro e cruel. Peele parece dizer que nem sempre podemos confiar na aparência inocente das pessoas.

Descobrimos então que, no subterrâneo dos EUA, em túneis abandonados, vivem essas cópias deformadas da população que vive acima da superfície. Cada habitante tem seu duplo, e eles chegaram para aterrorizar seus pares.

O verso da Bíblia que se repete ao longo do filme, Jeremias 11:11, é um indicador do apocalipse. Diz o seguinte:

Assim diz o Senhor: Trarei sobre eles uma desgraça da qual não poderão escapar. Ainda que venham a clamar por mim, eu não os ouvirei.

A própria disposição do número 11:11 é uma ideia de elemento espelhado, que mostra a dualidade explorada em todo o filme.

Mais do que uma questão individual, Peele parece colocar à prova a suposta bondade dos americanos, a hipocrisia de dar as mãos e, juntos, fazerem o bem para a humanidade, mesmo que alguns malformados fiquem escondidos nos subterrâneos do país, passando por provações e sacrifícios, como cobaias de quem vive lá no alto. A campanha dos bons samaritanos, em comercial dos anos 1980, sugere essa abordagem.

No fim das contas, Nós tem funcionado como ótimo entretenimento e rica metáfora do comportamento humano. E o talento de Jordan Peele transborda pela tela.

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