A Maldição da Residência Hill: os fantasmas escondidos dentro de nós

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Cena de A Maldição da Residência Hill, nova série da Netflix (Divulgação)

Filme de casa mal-assombrada é aquela coisa manjada: passagens secretas, fantasmas embaixo da cama, seres sobrenaturais escondidos no armário, maçanetas que se movem sozinhas, aparições refletidas no espelho. Qual foi o último desse subgênero que deixou sua marca? Horror em Amityville, Os Outros, Atividade Paranormal ou, talvez, o mais recente Hereditário.

Acontece que esse tipo de filme, explorado por importantes diretores desde o início do cinema em produções como The Cat and the Canary (1927) e The Old Dark House (1932), ainda é uma fértil fonte de inspiração e funciona bem hoje em dia. O diretor Mike Flanagan, responsável pela nova série da Netflix A Maldição da Residência Hill, parece ter noção disso.

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Se eu fosse um psicólogo, daria o seguinte diagnóstico: a casa representa o lugar mais seguro para todo mundo. É para onde voltamos quando precisamos de colo ou enfrentamos um período turbulento. É o nosso refúgio quando temos medo. Portanto, é um ícone inviolável de todas as famílias. Aí, quando coisas estranhas invadem esse ambiente, a lógica se corrompe e a estrutura emocional dos moradores entra em colapso.

Se voltarmos um pouco mais no tempo, encontramos o escritor Edgar Allan Poe tratando uma casa mal-assombrada como um organismo vivo e poderoso no conto A Queda da Casa de Usher (1839), no qual ele nos mostra a moradia como personagem principal e os moradores como vítimas de sentimentos como medo, derrocada e culpa.

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O pequeno Luke em A Maldição da Residência Hill (Divulgação)

É esse caminho, menos espetacular e mais psicológico, que Mike Flanagan percorre ao longo dos dez episódios da série A Maldição da Residência Hill. Além de sustos, ele propõe um estudo de personagens cuidadoso ao recriar a história da família Crain, contada no clássico livro de 1959 da autora Shirley Jackson.

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Santa Clarita Diet, a nova série da Netflix que zomba dos zumbis

Drew Barrymore matando a fome na série "Santa Clarita Diet"
Drew Barrymore matando a fome na série “Santa Clarita Diet”

Santa Clarita Diet pode ser uma piada de mau gosto para alguns, que podem acusar a nova série do Netflix, que estreou neste mês, de brincar com violência, morte e canibalismo e abusar do humor sarcástico. Sempre há puritanos de plantão no sofá. Eu, por outro lado, me diverti com os três primeiros episódios da primeira temporada. Afinal, ver a Drew Barrymore, que andava meio sumida dos cinemas, encarnando uma corretora de imóveis que morre e se transforma num zumbi sedento por carne humana é impagável.

Na série criada por Victor Fresco, ela interpreta Sheila, que é casada com o também corretor de imóveis (os dois fazem visitas juntos com clientes) Joel, (Timothy Olyphant), que adora se esconder no carro para fumar um baseado. Eles são casados há mais 20 anos, moram num subúrbio rico da Califórnia e têm uma filha, Abby, que fala o que lhe dá na telha sem medo de sermões.

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Estamos falando de uma produção de zumbis, mas atípica e original. Primeiro, por colocar uma mulher-zumbi como protagonista, depois por tirar sarro do gênero sem medo de parecer ridículo (muitas vezes, é ridículo mesmo) e, por fim, tem o mérito de humanizar e dar graça a uma criatura normalmente moribunda, pálida, sorumbática. Há uma inversão de valores: Sheila, antes de se tornar uma morta-viva, é uma pessoa insegura e sem graça; depois de virar um zumbi, quer tomar conta de todas situações, xinga todo mundo, se joga na pista com as amigas e se sente mais viva do que nunca, ainda que isso possa parecer um paradoxo.

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Dissecando ‘True Detective’: oito cenas com elementos ocultos

A série “True Detective”, de Nic Pizzolatto, tem rendido teorias e mais teorias sobre referências pagãs, rituais demoníacos e outras coisas do gênero que a gente mais gosta. Decidi reunir aqui alguns símbolos escondidos que podem ter passado batido para quem acompanhou a primeira temporada.

A impressão que dá é que Pizzolatto adora brincar com as pistas, inserir elementos para desafiar o espectador. Acredito que nem tudo o que sugere algo quer realmente dizer alguma coisa. Mas não deixa de ser divertido ficar caçando pelo em ovo. O crédito do que vem abaixo é todo do escritor Michael Hughes, que, no ótimo site io9, foi o primeiro a realmente se debruçar sobre a série, pausar e voltar cenas a fim de revelar dados ocultos. Confira oito cenas enigmáticas.

1. O diário de Dora Lange

No segundo episódio da série, o detetive Rust Cohle (Matthew McConaughey) encontra o diário de Dora Lange, a prostituta que foi morta num suposto ritual satânico. Referências ao livro de contos de terror “The King in Yellow”, obra do escritor americano Robert W. Chambers publicada em 1895, estão rabiscadas no caderno.

Um dos trechos é reproduzido fielmente: “Along the shore the cloud waves break/The twin suns sink behind the lake/The shadows lengthen/In Carcosa/Strange is the night where the black stars rise”.

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2. A tatuagem no pescoço de Carla

Carla, a personagem que diz aos investigadores que Dora havia frequentado uma estranha igreja antes de morrer, tem estrelas pretas tatuadas no pescoço. Esses elementos também remetem a um dos versos do livro de Chambers: “Strange is the night where the black stars rise”.

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3. A espiral dos pássaros

Quando o detetive Rust Cohle deixa uma igreja em chamas, durante a investigação do assassinato de Dora, ele olha para o alto e vê no céu pássaros que num voo caótico formam uma espiral negra, o mesmo elemento tatuado nas costas da vítima.

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4. A espiral de novo

Em várias cenas o símbolo de uma espiral aparece. Numa delas, ele pode ser visto na parede da casa de Martin Hart (Woody Harrelson), como se fosse um desenho de sua filha. Essas evidências apontam, segundo fãs, o detetive (ou seu pai, que tem uma brevíssima aparição) como um dos suspeitos pelas mortes.

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5. O sinal da cruz invertido

No terceiro episódio, o pastor Joel Theriot, cujo nome é quase idêntico a Therion, que, em grego, significa “A Besta”, faz o sinal da cruz no peito em ordem invertida, da direita para a esquerda. (Não consegui foto para ilustrar essa cena).

6. O monstro com cara de macarrão

O desenho de um homem com o rosto coberto de espaguete, que teria perseguido uma jovem na floresta, faz referência à figura pagã do “green man”. Em outra interpretação, a figura se refere à mítica criatura criada pelo escritor americano H.P. Lovecraft, Cthulhu.

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7. O retrato na casa da mãe de Dora

Uma estranha fotografia pode ser vista na visita que Martin e Rust fazem à casa da mãe de Dora. Cavaleiros mascarados aparecem na imagem como se participassem de um ritual pagão. Lembram também integrantes da organização racista Ku Klux Klan, que perseguiu negros nos EUA.

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8. As latinhas amassadas de Rust

Enquanto responde entediado aos questionamentos dos investigadores, Rust amassa latinhas de cerveja, depois de bebê-las, e monta bonequinhos que parecem compor a cena de um crime.

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Uma cena semelhante, se substituirmos latinhas por bonecas, pode ser vista no quarto da filha de Martin.

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