A literatura bruta de Ana Paula Maia em Enterre Seus Mortos

Enterre Seus Mortos, sétimo romance da escritora carioca Ana Paula Maia
Enterre Seus Mortos, sétimo livro da carioca Ana Paula Maia

O personagem principal de Enterre Seus Mortos, livro da escritora Ana Paula Maia que venceu o Prêmio São Paulo de Literatura deste ano, é um removedor de corpos de animais mortos. Edgar Wilson zanza com sua Caravan por estradas desertas, recolhe os bichos, leva para um moedor e, a partir dos restos triturados deles, passa pelo processo de compostagem.

Ana Paula Maia narra nas primeiras linhas o barulho dos ossos sendo triturados no moedor e o fedor que impregna o ambiente. Sentimos um sufocamento logo de cara. Não existe emoção naquela ação do dia a dia que, para Edgar Wilson, não passa da execução de um trabalho de rotina.

É assim a literatura da autora carioca que escreve como se esculpisse um calcário: de forma bruta, mas precisa, sem nenhum excesso.

Em Enterre Seus Mortos, seu sétimo romance, estamos em uma região não identificada, onde o Estado é ausente, as instituições públicas são omissas ou corruptas, as pessoas vivem desoladas e os abutres sobrevoam sobre carcaças jogadas pelos cantos. Os personagens executam tarefas sem emoção, cumprindo seu dever sem questionar. São duros, como os personagens de Cormac McCarthy, e integram o cenário de um faroeste sem verniz. O branco do calcário que explode nas pedreiras é o único som que quebra o silêncio de Edgar Wilson.

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A religião, representada por Tomás, ex-pastor e colega de trabalho de Edgar Wilson, e o significado da morte entram em cena na segunda parte da obra. A história ganha um tom quase sobrenatural quando, em vez de animais, Edgar e Tomás encontram pessoas mortas.

Ana Paula Maia, vencedora do Prêmio SP de Literatura

O que fazer com elas se nem os parentes reclamam de seu desaparecimento? Os IMLs estão lotados e não há espaço para armazenar corpos podres de mais gente. A situação é tão devastadora que parece cômica, em alguns trechos: Edgar Wilson usa o freezer do lugar onde trabalha como uma solução desesperada.

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Em suas andanças, entre uma chamada e outra do radiocomunicador, os dois amigos buscam, ao menos, dar dignidade a esses mortos, oferecer um sepultamento digno, assim como a reivindicação de Antígona na tragédia de Sófocles. Mas percebem que, ali naquela terra de ninguém, o destino dos animais é mais digno do que o do ser humano.

O homem desprovido da proteção da sociedade e das regras que nos conduzem parece ser o interesse de Ana Paula Maia. O homem do campo que está em contato direto com a natureza selvagem, escondendo sua alma sob uma carcaça dura de penetrar.

Uma grande obra (apesar de pequena, pouco mais de 100 páginas) de uma das autoras mais autênticas da nossa literatura!

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