A literatura bruta de Ana Paula Maia em Enterre Seus Mortos

Enterre Seus Mortos, sétimo romance da escritora carioca Ana Paula Maia
Enterre Seus Mortos, sétimo livro da carioca Ana Paula Maia

O personagem principal de Enterre Seus Mortos, livro da escritora Ana Paula Maia que venceu o Prêmio São Paulo de Literatura deste ano, é um removedor de corpos de animais mortos. Edgar Wilson zanza com sua Caravan por estradas desertas, recolhe os bichos, leva para um moedor e, a partir dos restos triturados deles, passa pelo processo de compostagem.

Ana Paula Maia narra nas primeiras linhas o barulho dos ossos sendo triturados no moedor e o fedor que impregna o ambiente. Sentimos um sufocamento logo de cara. Não existe emoção naquela ação do dia a dia que, para Edgar Wilson, não passa da execução de um trabalho de rotina.

É assim a literatura da autora carioca que escreve como se esculpisse um calcário: de forma bruta, mas precisa, sem nenhum excesso.

Em Enterre Seus Mortos, seu sétimo romance, estamos em uma região não identificada, onde o Estado é ausente, as instituições públicas são omissas ou corruptas, as pessoas vivem desoladas e os abutres sobrevoam sobre carcaças jogadas pelos cantos. Os personagens executam tarefas sem emoção, cumprindo seu dever sem questionar. São duros, como os personagens de Cormac McCarthy, e integram o cenário de um faroeste sem verniz. O branco do calcário que explode nas pedreiras é o único som que quebra o silêncio de Edgar Wilson.

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Por que tantos livros têm “girl” no título? O suspense sob a ótica das mulheres

Faz tempo que tenho notado a grande quantidade de livros de suspense com a palavra “girl” no título. A começar pela série Millennium, do escritor sueco Stieg Larsson: The Girl With the Dragon Tattoo (2005), The Girl Who Played with Fire (2006) e The Girl Who Kicked the Hornets Nest (2007). Estou me baseando nos títulos em inglês, há algumas variações quando eles são adaptados para o português. O enorme sucesso conquistado por Larsson parece ter sido um abre-alas para uma avalanche de outras obras com “garotas” estampadas na capa.

Em junho de 2012, a escritora americana Gillian Flynn lançou seu terceiro livro, Gone Girl (Garota Exemplar, na tradução em português), e alcançou uma popularidade inesperada ao contar a história do desaparecimento de Amy no dia de seu aniversário de casamento. Vendeu naquele ano mais de 2 milhões de exemplares e liderou a lista de mais vendidos do New York Times. A trama virou um ótimo filme dirigido por David Fincher, com a atriz Rosamund Pike no papel principal, ao lado de Ben Affleck.

Gillian Flynn
A escritora americana Gillian Flynn, autora de Garota Exemplar

Outro sucesso estrondoso veio em 2015 com o lançamento de The Girl on the Train (A Garota no Trem, em português), da inglesa Paula Hawkins. Aqui, temos o ponto de vista de Rachel Watson, uma jovem desiludida de 30 e poucos anos que adora tomar um porre e aproveita o caminho de trem que faz diariamente para observar a vida de um casal cuja relação é supostamente perfeita, até ela testemunhar algo estranho e se envolver em um thriller psicológico.

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Livro Nas Profundezas examina com rigor e sarcasmo o ocultismo

Livro Nas Profundezas, do escritor J. K. Huysmans
Nova edição de “Nas Profundezas”, do escritor francês J. K. Huysmans

Nas Profundezas é um dos livros mais misteriosos do fim do século 19. Em uma França dominada pela revolução industrial e pelos prazeres mundanos, o escritor J. K. Huysmans investiga o satanismo que renasce no país ao retratar um estudioso do assassino de crianças Gilles de Rais. Ao mesmo tempo, o autor questiona sua própria espiritualidade enquanto pesquisa a fundo cerimônias de missa negra, práticas de necrofilia e infanticídio em série.

Ganhei da minha mulher a caprichada edição limitada da Carambaia e aproveitei as folgas da virada do ano para ler Nas Profundezas. É uma paulada construída com o esmero de um escritor naturalista, preocupado em dar embasamento à sua narrativa. Entre uma cerveja e outra na Bahia, mergulhei fundo nesta obra surpreendente.

+ O livro oculto de Xerxenesky

Huysmans não é um autor muito conhecido no Brasil, mas integrou um time de calibre pesado da literatura francesa e fez companhia a Émile Zola, Edmond de Goncourt e Gustave Flaubert. Seu nome foi desenterrado recentemente pelo polêmico escritor Michel Houellebecq, cuja obra Submissão (2015) faz inúmeras alusões a Huysmans.

Em 16 de fevereiro de 1891, o jornal francês L’Écho de Paris estampou na sua primeira página uma chamada para um dos capítulos de Nas Profundezas, que foi publicado aos poucos no diário. Dizia o seguinte: “Primeiro estudo de observação do real feio a partir de documentos autênticos sobre o satanismo contemporâneo”.

Mas o que há de tão assustador no livro de Huysmans?

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