Livro Nas Profundezas examina com rigor e sarcasmo o ocultismo

Livro Nas Profundezas, do escritor J. K. Huysmans
Nova edição de “Nas Profundezas”, do escritor francês J. K. Huysmans

Nas Profundezas é um dos livros mais misteriosos do fim do século 19. Em uma França dominada pela revolução industrial e pelos prazeres mundanos, o escritor J. K. Huysmans investiga o satanismo que renasce no país ao retratar um estudioso do assassino de crianças Gilles de Rais. Ao mesmo tempo, o autor questiona sua própria espiritualidade enquanto pesquisa a fundo cerimônias de missa negra, práticas de necrofilia e infanticídio em série.

Ganhei da minha mulher a caprichada edição limitada da Carambaia e aproveitei as folgas da virada do ano para ler Nas Profundezas. É uma paulada construída com o esmero de um escritor naturalista, preocupado em dar embasamento à sua narrativa. Entre uma cerveja e outra na Bahia, mergulhei fundo nesta obra surpreendente.

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Huysmans não é um autor muito conhecido no Brasil, mas integrou um time de calibre pesado da literatura francesa e fez companhia a Émile Zola, Edmond de Goncourt e Gustave Flaubert. Seu nome foi desenterrado recentemente pelo polêmico escritor Michel Houellebecq, cuja obra Submissão (2015) faz inúmeras alusões a Huysmans.

Em 16 de fevereiro de 1891, o jornal francês L’Écho de Paris estampou na sua primeira página uma chamada para um dos capítulos de Nas Profundezas, que foi publicado aos poucos no diário. Dizia o seguinte: “Primeiro estudo de observação do real feio a partir de documentos autênticos sobre o satanismo contemporâneo”.

Mas o que há de tão assustador no livro de Huysmans?

É um choque que se dá aos poucos. Apesar de ser denso e ir fundo nos males do ser e do espírito humano, não é apelativo nem gratuito. Recupera relatos documentais da Idade Média de bruxaria, inquisição e da profanação de objetos sagrados. Narra com detalhes as atrocidades cometidas pelo monstruoso barão do século 15 Gilles de Rais, que lutou ao lado de Joana D’Arc contra os ingleses, acumulou uma fortuna, endividou-se e transformou o castelo de Tiffauges na casa do capeta, para onde convocava alquimistas como o italiano Francesco Prelati para evocar o demônio. Por fim, disposto a descer o último degrau do inferno, ele começa a molestar e matar crianças.

A partir dos estudos do protagonista do livro, Durtal, biógrafo de Gilles, descobrimos que entre 1432 e 1440, mais de 800 crianças que moravam em Anjou, Poitou e Bretanha desapareceram.

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J. K. Huysmans: a única foto que encontrei no Google

A estrutura de Nas Profundezas é construída por meio de diálogos entre os personagens. Durtal, o protagonista e estudioso das vilezas cometidas por Gilles, é um escritor descrente que discute suas ideias sobre a decadência da França com o médico Des Hermies. Os dois têm o costume de passar longas horas falando sobre religião com o casal Carhaix, que mora na torre da igreja de Saint-Sulpice. A mulher é uma cozinheira de mão cheia e recebe os convidados sempre com um banquete diferente, o homem é responsável por badalar o sino da igreja. Huysmans dedica páginas e páginas para descrever o meticuloso ofício dos sineiros, uma profissão àquela época ameaçada de extinção. Ficamos encantados com a paixão do sineiro por seu trabalho — e sua brava resistência diante do progresso.

Correndo em paralelo, temos ainda um caso de adultério meio bobo entre Durtal e a senhora Chantelouve, uma enigmática mulher da alta sociedade francesa. Uma presença levemente romântica em um texto descrente.

Nas Profundezas é um prato cheio para quem se interessa pelo ocultismo e suas variáveis. Huysmans passeia por histórias como a do abade Guibourg, que se envolveu com magia negra, ou a do cônego Duret, acusado de praticar necromancia e executado como bruxo em 1718.

Mas é bem mais do que isso! É uma investigação erudita e sarcástica sobre a religião e a espiritualidade em um período em que a França enfrenta uma importante transição rumo ao progresso e à industrialização. Huysmans deixa claro que despreza o que vê pela frente. É também, como aponta no posfácio o professor Pedro Paulo Catharina, um livro feito de livros, sobre a própria escrita.

Nas Profundezas, J. K. Huysmans
Detalhe da caprichada edição da Carambaia da obra “Nas Profundezas”

“De certo modo, ainda não superamos certas questões do século 19 levantadas em Nas Profundezas. A religião está na ordem do dia. Os crimes bárbaros se multiplicam. Buscamos refúgios, concretos ou abstratos, para escapar do turbilhão urbano e da sociedade cada vez mais massificada. O progresso decepciona. E a literatura, longe do prestígio que gozava outrora e ainda conservando uma visão romântica de si mesma, continua a repisar antigas questões. Huysmans, pessimista sarcástico e provocador, está sempre pronto a nos tirar da zona de conforto”, escreve Pedro.

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