A febre dos true crime podcasts

Podcast The Teacher's Pet
The Teacher’s Pet: podcast sobre o desaparecimento de Lynette Dawson

Antes da popularização da TV como o principal meio de comunicação na casa das pessoas, as famílias se reuniam, na primeira metade do século 20, em volta de um aparelho de rádio para ouvir radionovelas: dramalhões açucarados que contavam com vozes conhecidas de atores, efeitos sonoros e uma narração que atiçava a curiosidade do ouvinte. Era o entretenimento da época — e dizem que funcionava muito bem.

Pensei  nisso porque, de uns tempos pra cá, ando viciado em podcasts de crimes reais. Esse formato de conteúdo veiculado via streaming usando apenas o recurso de áudio tornou-se uma febre. E muito desse sucesso se deve, principalmente nos EUA, aos programas dedicados a resgatar, desvendar ou trazer à tona com novas informações casos de assassinatos misteriosos, matadores em série, desaparecimentos. O fenômeno ficou conhecido como true crime podcasts.

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Claro que em vez de escutar as histórias na sala de casa, como acontecia antigamente com as radionovelas, hoje ouço no trajeto de ônibus para o trabalho, em uma viagem longa, antes de dormir, na sala de espera de um consultório, lavando louça.

A ideia deste post é desenhar um panorama de como isso se popularizou e dar dicas de alguns bons podcasts no final. Além de te prender por algumas horas — muitos deles são repartidos em episódios como as séries –, é uma ótima ferramenta para treinar o inglês. (Infelizmente, as produções são quase todas gringas).

Em 2014, o podcast Serial foi o grande precursor de uma onda que só vem ganhando volume nos últimos anos. Produzido e narrado em primeira pessoa pela jornalista americana Sarah Koenig, o programa foi baixado 175 milhões de vezes, assumiu a primeira posição de downloads no iTunes por várias semanas e, em abril de 2015, foi premiado no Peabody Award pela narrativa inovadora.

Serial Podcast
Serial: o precursor da onda de true crime podcasts

Na primeira temporada, Serial contou a história da misteriosa morte por estrangulamento de uma estudante de 18 anos, Hae Min Lee, em Baltimore no ano de 1999. Acusado por uma fonte anônima, o ex-namorado da garota, Adnan Masud Syed, foi condenado pelo homicídio, apesar de até hoje declarar inocência.

Sarah Koenig, que narra o caso e se coloca no meio da história, reúne uma série de novas provas, fatos e entrevistas e parte em uma investigação meticulosa. Em 12 episódios, cuja duração varia de 30 a 50 minutos cada um, a jornalista reconstrói os últimos momentos antes da morte de Lee e lança dúvidas sobre a condenação de Syed.

Koenig entrevista Syed na prisão, fala com seus amigos mais próximos, questiona o método da procuradoria e dos advogados e nos conduz em uma trama envolvente. Com uma narrativa pessoal, trechos de áudio das entrevistas, antigos relatos gravados, efeitos sonoros, tudo se mistura em um relato que te prende do começo ao fim.

Após o sucesso, Serial emendou outras duas novas temporadas. A primeira cobriu o episódio envolvendo o soldado americano Bowe Bergdahl, que foi capturado pelo grupo extremista Talibã e ficou detido por cinco anos no Afeganistão. Depois, após uma investigação, descobriu-se que Bergdahl poderia ser, na verdade, um desertor e teria se entregado aos domínios do Talibã. Na terceira temporada, vários casos ordinários são abordados a partir do cotidiano de um tribunal em Cleveland.

Serial abriu caminho, nos anos seguintes, para o surgimento de outros podcasts que se debruçaram sobre casos reais envolvendo serial killers, falhas de investigação, casos mal-resolvidos, como Atlanta Monster, a série australiana Casefile e Up and Vanished (sobre pessoas desaparecidas).

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Atlanta Monster: investiga uma série de assassinatos de crianças e adolescentes há 40 anos

O hábito de ouvir podcast, destaca o colunista Eric Zorn do Chicago Tribune, vem crescendo anualmente nos EUA. De 2014 a 2017, houve um aumento de 88% de pessoas que ouvem podcast pelo menos uma vez por semana; e de 33% daquelas que afirmaram já ter ouvido podcast pelo menos uma vez na vida.

Falar de suspense e mistério sem mostrar imagens, deixando cada ouvinte construir na sua imaginação a história, pode ser um dos fatores do triunfo desse tipo de formato. Mas tem também uma sacada por trás de cada produção: envolver ao máximo o público para que ele faça parte da investigação, engajá-lo na trama como se ele fizesse parte do time de investigadores.

Em reportagem para a Forbes publicada em dezembro de 2018, o jornalista Joshua Dudley conta que os true crime podcasts estão prestando um serviço à justiça ao trazer à tona fatos relevantes com o poder de mudar uma condenação e o rumo da investigação. Ele conta que, em fevereiro de 2017, um homem acusado de assassinar uma professora de história na Geórgia foi preso graças às novas informações trazidas pelo podcast Up and Vanished.

Indico a seguir 5 podcasts sobre casos reais de crime que já se tornaram clássicos do formato. Ideal para começar o vício:

  1. Serial: produzido pelos criadores do programa de rádio This American Life e apresentado pela jornalista Sarah Koenig, já tem três temporadas. A primeira delas, composta de 12 episódios, trata da morte de uma estudante de 18 anos em Baltimore no ano de 1999.
  2. Atlanta Monster: conta a história da série de assassinatos de criança em Atlanta há 40 anos. O apresentador Payne Lindsey faz um exame detalhado do desaparecimento e morte de mais de 25 crianças e adolescentes de origem africana que moravam nos EUA.
  3. Teacher’s Pet: conduzido pelo jornalista australiano Hedley Thomas, o podcast é uma investigação sobre o desaparecimento de Lynette Dawson, esposa do jogador de rúgbi e professor Chris Dawson, em 1982.
  4. Dirty John: baseado na vida do vigarista e sociopata John Meehan e seu relacionamento com a empresária Debra Newell. O podcast é hospedado por Christopher Goffard e foi criado pelo jornal Los Angeles Times.
  5. Casefile: no ar desde janeiro de 2016, é uma série que narra em cada episódio um crime diferente. O programa é conduzido por um apresentador australiano que se mantém anônimo até hoje.

 

 

 

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