Immersive horror: um fenômeno assustador se espalha pelos EUA

14633295_1793356227574761_4536810567647968319_o_2040

Imagine entrar de fato no cenário de um filme de terror, conversar com os personagens e mudar o rumo da história? Conhecida como Immersive Horror, uma experiência que mistura ficção e realidade, presente em multiplataformas ao mesmo tempo, tem assustado adeptos nos Estados Unidos, sobretudo em Los Angeles, onde iniciativas desse tipo começaram a pipocar no ano passado.

O assunto ganhou tanto peso que virou tema de uma mesa no importante festival South by Southwest, realizado no último mês no Texas (EUA). Participaram da discussão os criadores do The Tension Experience, um projeto ambicioso do diretor Darren Lynn Bousman, do produtor Gordon Bijelonic e do escritor Clint Sears que mobilizou o público ao longo de nove meses em uma trama com ARG (alternate reality game), quebra-cabeças, experiências ao vivo, performances e realidade virtual.

+ Rua Cloverfield, 10: o que está por trás do jogo criado por J.J. Abrams

Fazendo uma comparação tosca com o passado, é como entrar numa casa assombrada, dessas que existem em parques de diversão, só que, nesse caso, em muitos momentos os participantes perdem a noção do que é real e imaginário. Os elementos da trama surgem em diversos meios (redes sociais, vídeos, mensagens de celular) e até em aparições reais. Tudo coordenado por roteiristas que tratam a experiência de cada pessoa como única.

Continuar lendo

Santa Clarita Diet, a nova série da Netflix que zomba dos zumbis

Drew Barrymore matando a fome na série "Santa Clarita Diet"
Drew Barrymore matando a fome na série “Santa Clarita Diet”

Santa Clarita Diet pode ser uma piada de mau gosto para alguns, que podem acusar a nova série do Netflix, que estreou neste mês, de brincar com violência, morte e canibalismo e abusar do humor sarcástico. Sempre há puritanos de plantão no sofá. Eu, por outro lado, me diverti com os três primeiros episódios da primeira temporada. Afinal, ver a Drew Barrymore, que andava meio sumida dos cinemas, encarnando uma corretora de imóveis que morre e se transforma num zumbi sedento por carne humana é impagável.

Na série criada por Victor Fresco, ela interpreta Sheila, que é casada com o também corretor de imóveis (os dois fazem visitas juntos com clientes) Joel, (Timothy Olyphant), que adora se esconder no carro para fumar um baseado. Eles são casados há mais 20 anos, moram num subúrbio rico da Califórnia e têm uma filha, Abby, que fala o que lhe dá na telha sem medo de sermões.

+ Para ver no NOW: o japonês assustador Creepy

Estamos falando de uma produção de zumbis, mas atípica e original. Primeiro, por colocar uma mulher-zumbi como protagonista, depois por tirar sarro do gênero sem medo de parecer ridículo (muitas vezes, é ridículo mesmo) e, por fim, tem o mérito de humanizar e dar graça a uma criatura normalmente moribunda, pálida, sorumbática. Há uma inversão de valores: Sheila, antes de se tornar uma morta-viva, é uma pessoa insegura e sem graça; depois de virar um zumbi, quer tomar conta de todas situações, xinga todo mundo, se joga na pista com as amigas e se sente mais viva do que nunca, ainda que isso possa parecer um paradoxo.

Continuar lendo

A arte deformada de Jonathan Payne e nossa atração pelo bizarro

É estranha a nossa reação quando estamos à frente de algo bizarro: sentimos repulsa, mas não a ponto de querer se afastar do objeto (pelo menos, esse é o meu caso). Fiquei intrigado com as esculturas criadas pelo artista americano Jonathan Payne, especialmente a série que ele chama de Fleshlettes. São esculturas feitas de acrílico, cabelo e pedaços de borracha que reproduzem partes do corpo humano em combinações surreais, como uma língua cheia de dentes e uma massa de pele com verrugas e dedos sobrepostos.

+ Um tubarão possuído pelo demônio nas telas perto de você

Continuar lendo

O tubarão possuído pelo demônio e o fenômeno criado por Spielberg

 

Mesmo que você pense, num dia de criatividade à flor da pele, em fazer um filme sobre um tubarão possuído pelo demônio é mais provável que essa ideia não siga adiante, certo? Não é assim que a cabeça do diretor Donald Farmer funciona. Ele acaba de finalizar um dos filmes mais bizarros do ano, Shark Exorcist, cujo lançamento em DVD está programado para ocorrer em 24 de junho. A pré-venda já está rolando aqui.

+ Mostra Carnificina reúne obras raras na USP

Farmer tem uma forte propensão ao grotesco. Dirigiu outras produções B’s com combinações duvidosas como Chainsaw Cheerleaders (2008), em que uma jovem empunha uma motosserra para lutar contra os seguidores de uma bruxa. Em Shark Exorcist, seu filme mais recente, ele conta a história de um padre que combate forças malignas numa pacata vila de pescadores. Confira o trailer.

Continuar lendo

O fantástico mundo B do quadrinista Chico Felix!

Tenho a satisfação de anunciar que A Cruz e a Empada está de cara nova. O desenho do topo acima, com duas criaturas gosmentas que são atingidas pela explosão do novo logo (agora, em vermelho) é obra do talentoso Chico Felix, um quadrinista e músico carioca (ele toca em duas bandas, Evil Idols e Vida Ruim) que já fez trabalhos para revistas bagaceiras e prestigiosas como PregoMad.

Quando conheci o trabalho do Chico, por indicação de um amigo designer do Guia Folha, fiquei pirado. Tem muito a ver com a cultura trash com a qual me identifico e com os temas que tratamos por aqui: os traços sujos, os personagens que parecem ter saído de uma lata de lixo e o apreço por monstros e alienígenas em ambientes punk.

Continuar lendo

Zé do Caixão: mostra tem tripas, caveiras e braços decepados

Zé do Caixão (Divulgação/MIS)
Zé do Caixão (Divulgação/MIS)

Veio em bom momento a exposição do MIS, em São Paulo, dedicada ao mestre do horror nacional José Mojica Marins. O cineasta de 79 anos passa por maus bocados: sofreu duas paradas cardíacas, ficou internado no hospital por seis meses e, agora, em casa sob os cuidados da filha, Liz Vamp, luta contra um enfisema pulmonar. Vai e volta do hospital para fazer diálises num roteiro desgastante. Conversei com a sua filha por telefone e, muito paciente e atenciosa, ela explicou que a voz do Zé do Caixão, normalmente potente e empostada, está fraquinha, quase não sai de sua boca.

+ Filme esquisitão mostra homem que arranca a pele em prova de amor

Ou seja, a mostra À Meia-Noite Levarei Sua Alma é uma homenagem justa e oportuna. Antes dela, a 39ª Mostra de Cinema de São Paulo também fez a sua parte: concedeu a Mojica o prêmio Leon Cakoff e exibiu sua famosa trilogia: À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1964), Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967) e Encarnação do Demônio (2008).

Exposição À Meia-Noite Levarei Sua Alma, no MIS (Fernando Masini)
Exposição À Meia-Noite Levarei Sua Alma, no MIS (Fernando Masini)

Quase todo o material exposto integra a coleção preservada por Marcelo Colaiacovo, curador do acervo do cineasta e um de seus assistentes de direção. Não é uma seleção extensa, ocupa apenas o primeiro andar do museu, mas os fãs vão se divertir. É tudo meio tosco, como, nesse caso, tem que ser. Cada vitrine, com cartazes, escritos originais, fotos de cenas, VHSs, recortes de revistas e objetos cênicos, representa um filme, entre eles Delírios de um Anormal (1978) e Ritual dos Sádicos (1970), este último censurado pelo regime militar.

+ Klaus Renft Combo: o rock da RDA sob o regime vermelho

Um caixão disponibilizado pelo Cemitério da Consolação para o filme Encarnação do Demônio é exibido ao lado do famoso traje preto de Zé do Caixão criado pelo estilista Alexandre Herchcovitch. O visitante encontrará também um filme em película 16 milímetros de À Meia Noite Levarei sua Alma e um troféu de 1973, recebido por Mojica no Festival Internacional de Cine Fantástico y de Terror Sitges, na Espanha.

Mostra dedicada ao Zé do Caixão (Divulgação/MIS)
Mostra dedicada ao Zé do Caixão (Divulgação/MIS)

A sala mais ousada da exposição, que foge das soluções óbvias de curadoria compostas de texto e foto, reproduz o inferno. Ou como seriam as trevas na visão do Zé do Caixão. Paredes e azulejos se misturam a tripas como se fosse uma obra de Adriana Varejão. No ambiente de luz avermelhada, uma caveira repousa numa banheira e bonecos decepados pendem do teto de uma sala de cirurgia. O ambiente é ideal para fazer sua selfie macabra!

O circuito é pequeno e deixa o visitante com vontade de saber mais sobre a vida de Mojica. E por que não há trechos de seus filmes? Os vídeos curtos cumprem somente função decorativa.

Para saber mais sobre Zé do Caixão recomendo o livro Maldito, dos jornalistas André Barcinski e Ivan Finotti. Está esgotado, mas dá para achar em sebos. Força, Mojica!