Os punks contra a letargia digital

As gangues da ZN botando o terror em SP
As gangues da ZN botando o terror em SP

A juventude de hoje em dia, mergulhada na letargia digital, tem muito a aprender com os punks dos anos 1980. Falo do espírito rebelde, contestador, iconoclasta e da coragem de revirar o sistema do avesso, do gosto pela rua, menos das roupas espetadas, do cabelo moicano, isso é mais fácil de copiar. OK, muitas vezes, eles mal sabiam que rumo estavam tomando, mas viviam com mais urgência. Era mais “foda-se o mundo” e menos “mais amor, por favor”. Fizeram uma merda ou outra pelo caminho, mas deixaram um vigoroso rastro de discórdia pela música, cinema, moda, política.

Não lembra disso, não? Então, minha dica é se divertir com o livro Meninos em Fúria – O Começo do Fim, escrito pelo jornalista Marcelo Rubens Paiva e por Clemente, baixista/guitarrista/vocalista da banda Inocentes e pioneiro do punk em São Paulo. Eles se colocam no meio da narrativa e contam como o movimento nasceu na Vila Carolina, na Zona Norte de São Paulo, entre uma treta e outra das gangues locais, virou um estilo de vida de grupos como Cólera, Olho Seco, AI-5, Lixomania, Condutores de Cadáver e invadiu até clube de bacana.

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Quem viu o documentário Botinada, do ex-apresentador da MTV Gastão Moreira, já tem uma ideia da explosão que foi tudo aquilo. Aliás, o filme serve como um complemento do livro. Dá uma puta vontade de ver as imagens dos shows depois da última página. Alguns registros raros integram o longa do Gastão.

Capa do livro "Meninos em Fúria - O Começo do Fim"
Capa do livro “Meninos em Fúria – O Começo do Fim”

Marcelo Rubens Paiva era estudante de comunicação da USP na época, já estava na cadeira de rodas e se jogava nas noitadas e becos onde rolava música punk. Clemente, seu amigo, vivia com as irmãs, o pai e a mãe na periferia, ajudou o pai a vender guarda-chuvas na Sé, arrumava confusão a cada esquina e, vestido de jaqueta de couro e calça jeans retalhada, começou a tocar no Restos de Nada, considerada uma das primeiras bandas punks do país.

A ditadura no país estava ali para reprimir, e o movimento punk para resistir, avacalhar e se libertar de uma sociedade asfixiante e careta. Primeiro, brotou na Zona Norte, depois espalhou-se pelo ABC (a região metropolitana de São Paulo). Gangues de lá e de cá, eternos rivais, se pegavam com canivetes, correntes e coquetéis molotov onde quer que fosse. Durante um show no Construção, um ponto de encontro de punks na época, Pádua, da banda Passeatas, perdeu a mão ao lançar um coquetel molotov que estourou antes da hora. Tudo terminava em briga. Clemente foi cansando de tanta treta e fez um esforço tremendo de apaziguar o clima e fortalecer o punk no país. Chegou a lançar um manifesto, em repúdio a um artigo virulento contra eles publicado no Estadão, em que diz: “Nós estamos aqui para revolucionar a música popular brasileira, pintar de negro a asa branca, atrasar o trem das onze, pisar sobre as flores de Geraldo Vandré”.

Festival punk "O Começo do Fim do Mundo", realizado no Sesc Pompeia em 1982
Festival punk “O Começo do Fim do Mundo”, realizado no Sesc Pompeia em 1982

No papel de porta-voz daquele momento, Clemente viu sua banda Inocentes (do hit Pânico em SP) ganhar espaço, contrato com gravadora, convites para festivais e até uma participação especial na sofisticada boate Gallery, onde os grã-finos se deleitavam com caviar e champanhe. Óbvio, não deu certo. Certa fama veio junto com ataques dos próprios punks, os mais fanáticos, que consideravam aquela atitude uma traição: vender discos, camisetas da banda e ganhar dinheiro com os shows era como vender à alma ao Diabo, andar de mãos dadas com o capitalismo, o principal alvo de suas botinadas.

Clemente ficou de saco cheio. Enquanto isso, Marcelo Rubens Paiva escrevia um best-seller, Feliz Ano Velho, e experimentava também um pouquinho da fama. Algumas passagens do livro, é verdade, funcionam mais como uma autobiografia recortada do escritor e colunista, fugindo do tema da redação como um estudante malcriado e vaidoso. Mas, pensando bem, para que regras?

PS: Aproveitando, acaba de ser lançada a biografia Vivienne Westwood, sobre a precursora da moda punk.

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