Os punks contra a letargia digital

As gangues da ZN botando o terror em SP
As gangues da ZN botando o terror em SP

A juventude de hoje em dia, mergulhada na letargia digital, tem muito a aprender com os punks dos anos 1980. Falo do espírito rebelde, contestador, iconoclasta e da coragem de revirar o sistema do avesso, do gosto pela rua, menos das roupas espetadas, do cabelo moicano, isso é mais fácil de copiar. OK, muitas vezes, eles mal sabiam que rumo estavam tomando, mas viviam com mais urgência. Era mais “foda-se o mundo” e menos “mais amor, por favor”. Fizeram uma merda ou outra pelo caminho, mas deixaram um vigoroso rastro de discórdia pela música, cinema, moda, política.

Não lembra disso, não? Então, minha dica é se divertir com o livro Meninos em Fúria – O Começo do Fim, escrito pelo jornalista Marcelo Rubens Paiva e por Clemente, baixista/guitarrista/vocalista da banda Inocentes e pioneiro do punk em São Paulo. Eles se colocam no meio da narrativa e contam como o movimento nasceu na Vila Carolina, na Zona Norte de São Paulo, entre uma treta e outra das gangues locais, virou um estilo de vida de grupos como Cólera, Olho Seco, AI-5, Lixomania, Condutores de Cadáver e invadiu até clube de bacana.

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Quem viu o documentário Botinada, do ex-apresentador da MTV Gastão Moreira, já tem uma ideia da explosão que foi tudo aquilo. Aliás, o filme serve como um complemento do livro. Dá uma puta vontade de ver as imagens dos shows depois da última página. Alguns registros raros integram o longa do Gastão.

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Napalm Death faz show epiléptico em SP para galera alucinada

Napalm Death no palco do Clash Club, em São Paulo
Napalm Death no palco do Clash Club, em São Paulo

Já tinha ouvido falar da energia do Napalm Death no palco, mas nunca tinha ido a um show dos caras. No domingo (26/6), o lendário grupo inglês que botou o espírito punk no metal tocou no Clash Club. Fui lá ver e pirei! Sem dúvida, é a banda que mais incendeia o público ao vivo. Desde a primeira canção, Mass Appeal Madness, formou-se uma imensa roda de metaleiros enlouquecidos que só se desfez depois de Smear Campaign, que encerrou a noitada.

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A impressão é que Mark “Barney” Greenway, vocalista e homem de frente do Napalm Death, teve um ataque epiléptico bem no início da apresentação e foi curar depois que apagaram as luzes. Ele berra, treme, chuta o ar, corre e se joga no palco com a disposição de um moleque de 15 anos. (Mark já tem 46 anos). Tudo é rápido demais, seco, brutal, uma paulada sonora sem preocupação com melodias. E, mesmo que você não seja fã da banda, vai embarcar na proposta. Continuar lendo

A treta do D.R.I. ou o show que não rolou de novo

D.R.I. em show na Austrália (Jana Perry/Divulgação)
D.R.I. em show na Austrália (Jana Perry/Divulgação)

Não é a primeira vez que a banda americana D.R.I. decepciona os fãs da América do Sul. Na semana passada, os caras anunciaram em cima da hora o cancelamento da turnê por países como Chile, Argentina, México e Brasil. Na versão deles, bastante contestada pelos fãs e responsáveis pelas apresentações, houve falhas no pagamento antecipado e na reserva de voos. Ontem (terça), o grupo tocaria no Inferno, em São Paulo, e hoje (quarta) no Teatro Odisseia, no Rio de Janeiro. Não rolou de novo.

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É a segunda vez que o D.R.I., um dos nomes mais fodas do crossover dos anos 80 (gênero que mistura trash e hardcore), cancela shows por aqui. Em 2014, a tour pelo Brasil foi suspendida porque os integrantes da banda alegaram que não tiveram tempo suficiente para tirar os vistos necessários para entrar no país. Ou seja, o histórico dos caras não tá favorável.

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Test faz show destruidor no Sesc, abrindo para o Ratos de Porão

Fui ver o Ratos de Porão no Sesc Pompeia, em São Paulo, no último domingo, e saí mais impressionado com a banda que abriu o show deles, o Test. É um duo formado pelo vocalista e guitarrista João Kombi e pelo baterista Thiago Barata. Só os dois no palco, um virado para o outro, fazendo um barulho de estremecer o teto, sem ligar muito para a plateia.

O duo de death metal Test em show no Sesc Pompeia
O duo de death metal Test em show no Sesc Pompeia

Com letras esgoeladas em português, os caras misturam death metal com grindcore num estilo seco, rápido e matador que remete ao Napalm Death. Barata é assustador na bateria, é mais rápido que o papa-léguas (lado a lado com o Bolt), seus braços parecem sumir com os movimentos. Cadencia o ritmo em alguns momentos, para explodir em seguida. João modula a voz entre o gutural e os gritos mais rasgados e, às vezes, mostra o rosto escondido atrás da cabeleira preta.

Eles têm apenas um álbum lançado, “Árabe Macabre”, além de um EP (“Carne Humana”, 2010). O disco de estreia traz dez músicas, sendo que a mais longa delas dura 2 minutos e 50 segundos. É uma paulada só. Destaque para “Venenom” e “Morrer Lentamente”.

Além de fazer um som de primeira, o Test resgata a atitude punk de fazer música na marra. Não querem saber de produtor, de gravadora, de palco, de imprensa… ficaram conhecidos por levar os equipamentos numa kombi (daí o apelido do João) até algum canto da cidade, de preferência na frente de um show de metal para aproveitar o público na fila, e tocar na rua, com a estrutura mais ordinária que se possa imaginar. Montam e desmontam tudo antes de a polícia aparecer para enxotá-los. Cru e pesado, como dá para conferir no vídeo abaixo.