O Poço: uma alegoria perturbadora em tempos de confinamento

O Poço, da Netflix
O ator Ivan Massagué em O Poço, da Netflix

Em tempos de coronavírus, com o mundo confinado em casa, a Netflix lançou na semana passada o filme espanhol O Poço em seu serviço de streaming. Pode ser um bom momento para refletir sobre nossa realidade. Assim como pode ser arriscado oferecer um conteúdo tão brutal num momento sensível.

O Poço (El Hoyo, no original) é uma alegoria do nosso sistema de classes e do darwinismo social. É uma crítica ao capitalismo e como ele corrompe a pureza congênita (será?) do ser humano. É também um bom entretenimento: um filme de terror com conteúdo.

A história é simples: em um mundo distópico funciona uma imensa estrutura que parece uma prisão vertical, sendo que cada cela ocupa um dos mais de 200 andares. Duas pessoas convivem em cada andar, que tem cama, pia e banheiro – e só. Alguns são criminosos, outros são voluntários que passam pela experiência em troca de uma recompensa.

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Na parte central dessa estrutura, no meio dos andares, uma base de concreto circula de cima a baixo como um elevador. Sobre essa base há um banquete preparado pela administração do lugar. Um banquete mesmo: com lagosta, bolos de festa, peru, escargot.

O jogo de convivência é o seguinte: quem está nos andares de cima tira proveito de um farto banquete, enquanto os que estão embaixo ficam com as sobras. Lá no fim do poço, não resta comida.

Em teoria, a comida é suficiente para todos que estão na prisão, mas os mais abastados se alimentam além da necessidade, deixando os demais sem uma migalha.

Atenção: conto mais sobre o filme a partir daqui, há spoilers adiante.

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O Farol: um norte para entender o filme

O Farol, de Robert Eggers
Cena do filme O Farol, de Robert Eggers

Quase tudo tem a ver com pênis no filme O Farol. Esse símbolo fálico é explorado pelo diretor Robert Eggers de diversas maneiras. O próprio formato do farol é tratado como um pinto enorme, cuja luz magnética que tanto atrai os dois personagens seria como a cabeça sensível do membro. Ela guia o ato dos homens, assim como orienta os marujos no mar.

O pênis é o maior representante, como nos ensinou estudiosos da psicologia, da masculinidade, pelo qual os homens demonstram sua força e virilidade. A luta por poder entre dois homens enclausurados em uma ilha remota é o tema central de O Farol, assim como o esforço deles na tentativa de dominar a natureza inclemente.

Foi assim que eu vi (e interpretei) o novo filme do diretor Robert Eggers, que esteve à frente do excelente A Bruxa. Junto com seu irmão, Max, Eggers construiu uma história fabulosa, sombria e cheia de referências à mitologia e à literatura náutica. E filmada em película 35 mm, em preto e branco e no formato quadradinho, como eram rodados os filmes no começo do século 20, ou seja, nos primórdios do cinema.

+ Midsommar: paganismo no interior da Suécia

Willem Dafoe interpreta Thomas, um velho ranzinza que há anos zela pelo funcionamento de um farol isolado do continente, em New England no fim do século 19. Para ajudá-lo nas tarefas diárias, ele recebe a companhia de um jovem que cortava lenha nas montanhas do Canadá, o calado e desconfiado Ephraim Winslow (Robert Pattinson).

Robert Pattinson em O Farol
Robert Pattinson no filme de terror O Farol

A convivência em um ambiente remoto e selvagem vai testar a paciência e a sanidade dos dois. Thomas adora dar ordens, enquanto Ephraim pega no pesado, limpando a casa que fica ao lado do farol, arrumando as telhas, limpando a caixa de água. À noite, eles dividem a mesa para comer e beber. Com o tempo, a bebida passa a ser um alento para o duro trabalho.

Assim como ocorre em O Iluminado, do Kubrick, muitas dúvidas surgem na cabeça do espectador: o que de fato está acontecendo e o que é imaginação fruto da mente perturbada dos personagens. Em entrevistas, Eggers prefere deixar a questão em aberto.

A violência vai ganhando camadas aterrorizantes na relação entre dois homens que, aos poucos, se comportam como dois animais primitivos, se engalfinhando por espaço e poder. A atmosfera esfumaçada, pesada e comprimida sufoca o espectador, que busca respostas no meio do caos.

Assista ao trailer de O Farol

Enquanto isso, Eggers recheia O Farol com um monte de referências e citações. Vou tentar decifrar alguma delas a seguir. Para quem ainda não viu, há spoilers adiante:

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Midsommar: terror hippie no calor da Suécia

Midsommar
Christian e Dani assistem à ritual macabro em Midsommar, de Ari Aster

Tudo acontece à luz do dia no filme Midsommar, o que, cá entre nós, é bem incomum nas produções de terror. Essa é uma das graças da última obra do diretor Ari Aster, que causou burburinho em torno de seu nome depois do lançamento de Hereditário.

Quando cai a noite e todos vão dormir, Aster opta por cortar a cena, dar um salto no tempo de algumas horas, e retomar a ação quando está claro de novo.

Midsommar foi um dos filmes mais comentados de 2019, figurando inclusive na prestigiosa lista de melhores do ano da revista britânica Sight and Sound, mesmo competindo fora do seu gênero.

A meu ver, é bom porque consegue amarrar a história maluca de uma seita pagã na Suécia com a carga emocional do luto de uma das personagens principais.

+ O lado humano da série Inacreditável, da Netflix

Dani, interpretada pela atriz Florence Pugh, é uma jovem que sente as agruras da irmã deprimida e enfrenta instabilidades na relação com seu namorado, o insensível Christian (Jack Reynor). Logo no início da trama, ela passa por uma terrível tragédia — não vou contar muito para guardar a surpresa.

Alerta de spoiler: daqui pra baixo conto um pouco mais sobre a história.

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