Um filme que exige silêncio absoluto da plateia

A Quiet Place1
Emily Blunt e Millicent Simmonds em cena de “Um Lugar Silencioso”

Um Lugar Silencioso é um filme que, ao exigir silêncio de seus personagens, acaba provocando uma curiosa sensação dentro da sala de cinema: a plateia também sente-se obrigada a se manter calada durante toda a projeção, um momento raro em um mundo cada vez mais ruidoso. Essa é a grande sacada de John Krasinski, que assina a direção e é um dos atores do filme. Isso não quer dizer, entretanto, que se trata de uma obra tão inovadora assim — a concepção, de fato, é, mas o desenvolvimento do enredo, nem tanto.

Na sala lotada em que eu assisti a Um Lugar Silencioso, em um shopping na capital paulista, todos pareciam fiscalizar qualquer barulho e se cuidavam na hora de cochichar com o amigo ou a amiga, de cruzar as pernas para não ranger a poltrona e no momento de enfiar a mão no saco de pipoca (também quando dosavam o movimento do maxilar ao devorar o milho). É um feito e tanto de Krasinski impor silêncio à plateia sem ter que soltar o famoso “psiu”. Se pensarmos em um sentido ainda mais amplo, controlar os ruídos durante uma hora e meia é um exercício quase budista, de introspecção, de atenção plena e mente suspensa.

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Bom, mas como Krasinski conseguiu isso? Um Lugar Silencioso mostra como uma família tenta sobreviver em uma região controlada por monstros que devoram seres humanos quando notam qualquer tipo de barulho, seja a voz mais alta de alguém, seja o barulho de um sapato em contato com o piso de madeira. Essas criaturas que parecem ter saído da franquia Alien têm uma audição muitíssimo apurada, ou seja, qualquer pum pode ser fatal.

É um filme pequeno, com poucos personagens e ambientado, em sua maior parte, em uma única locação. Krasinski (mais conhecido pela série The Office) é o pai que faz de tudo para proteger os filhos nesse mundo pós-apocalipse, inclusive montando um bunker na casa da família, onde faz pesquisas de sobrevivência em situações-limite. No papel da mãe está Emily Blunt, que dá corpo ao filme com ótima atuação, dramática e aflitiva na medida certa. Eles são os pais de Regan (Millicent Simmonds), Marcus (Noah Jupe) e Beau (Cade Woodward).

Imagine que em um ambiente onde o ruído pode ser mortal é preciso andar descalço o tempo todo, falar em linguagem de sinais e ouvir música sempre com fones de ouvido.

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Apesar de ser comercializado como um filme de terror, comparado ao recente Corra! (sinceramente, não entendi bem o motivo), é uma obra que se encaixa mais como um suspense, no qual a tensão e a aflição tomam conta da sala. Como é de se esperar, os diálogos são escassos e, descobrimos após a projeção, que o silêncio também pode ser perturbador e incômodo. Os barulhos da plateia mexendo no saco de pipoca ou sugando o refrigerante até a última gota tomam proporções enormes, enquanto a família Abbott, no filme, procura abafar os movimentos e afastar a ameaça.

Assim como os filmes de Shyamalan, a quem Krasinski presta reverência, Um Lugar Silencioso é uma produção polida (não tem as sujeiras de filmes B de terror), tem fotografia muito bem cuidada (basta notar as cenas do alto com trilhos de trem cortando a tela na transversal, em um quadro meticulosamente pensado), atores conhecidos e, infelizmente, uma trilha sonora desnecessária, buscando acentuar uma situação que já é dramática. A meu ver, ao se preocupar em sublinhar com linhas emocionais a mensagem do sacrifício dos pais pelos filhos, o filme quase desanda para um resultado piegas.

Ainda assim, merece o crédito de propor algo novo (e causar um interessante efeito na plateia) em um gênero que não se cansa de repetir fórmulas. 

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