Mindhunter: somos todos fascinados por serial killers

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O agente do FBI Holden Ford em Mindhunter, nova série do Netflix

Mindhunter não tem pressa de impressionar o público nos primeiros episódios. Comparada a outras séries, desenvolve-se em banho-maria. É meticulosa, inteligente e construída com esmero: dos diálogos aos enquadramentos e aos movimentos precisos de câmera. É necessário prestar atenção para acompanhar as extensas falas e a lógica de raciocínio dos personagens. É assustadora, sem derramar muito sangue. É macabra mais pelo impacto mental do que pelo espetáculo visual.

Basicamente, dá para resumi-la como um estudo sobre a onda de serial killers que se alastrou pelos Estados Unidos entre as décadas de 1970 e 1980, quando o FBI ainda mal sabia como classificá-los. Mas, a meu ver, instiga também por outro ângulo: a fascinação da cultura ocidental por esse tipo de criminoso — filmes como O Silêncio dos Inocentes, Seven, Henry – O Retrato de um Assassino e séries (Criminal Minds, True Detective, The Fall, Hannibal) comprovam esse interesse.

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Acontece que o foco, em Mindhunter, está mais na cabeça dos criminosos e na maneira como eles são tratados e menos nas engenhosas concepções dos crimes. Aí já temos uma abordagem original. A série, cuja primeira temporada estreou no Netflix neste mês, foi criada por Joe Penhall, responsável por roteirizar para os cinemas o livro A Estrada, de Cormac McCarthy, e tem entre seus diretores o genial David Fincher. A escolha não pode ser mais acertada! Com certeza, Fincher sentiu-se em casa nessa função, já que esteve à frente de dois dos melhores filmes do gênero: Seven e Zodíaco.

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O sadismo de Darren Aronofsky em Mãe! beira o insuportável

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Jennifer Lawrence e Javier Bardem: a mãe-natureza e o pai de todos

Darren Aronofsky deve ter prazer em torturar o público, assim como deve sentir satisfação em maltratar suas atrizes. Foi assim em Réquiem para um Sonho (2000), cuja vítima foi Ellen Burstyn, depois em Cisne Negro (2010), com Natalie Portman, e, agora, Jennifer Lawrence enfrenta semelhante calvário em Mãe!, novo filme do diretor americano. Com tantos exemplos, um seguido do outro, fica difícil refutar sua veia sádica. Já a experiência do espectador é testada ao limite, como se ele desafiasse a plateia a fim de ver quantas pessoas deixarão a sala com enjoo antes do fim da projeção.

Não é uma estratégia nova, evidentemente. Suscitar polêmica é uma ferramenta muito útil para levar pessoas ao cinema, mesmo que elas saiam no meio do filme ou vaiem no final. O gênero de terror se move dessa maneira, expandindo os limites do absurdo e aumentando o nível de provocação. Imagino que um diretor deva achar ótimo quando alguém passa mal vendo seu filme, e a notícia circula pelo mundo todo. Isso desperta a curiosidade mórbida intrínseca do ser humano.

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Foi o que rolou com Mãe!. No Festival de Toronto, no Canadá, onde foi exibido antes de estrear, parte do público vaiou após a sessão, enquanto outra parte, aplaudiu. Todos, no entanto, saíram chocados do cinema. Aronofsky conseguiu, mais uma vez, o que desejava: botar sua história na boca da mídia e do povo para garantir bilheteria.

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Jennifer Lawrence: um calvário nas mãos de Aronofsky

A polêmica gira em torno da reinterpretação que o cineasta se propõe, bem à sua maneira radical , do Gênesis, narrando em uma espécie de alegoria a criação do mundo e os primeiros pecados. Jennifer Lawrence é uma jovem que se dedica a cuidar da casa e  do marido, o escritor e poeta Javier Bardem, que passa por um bloqueio criativo. (Os personagens não têm nome no filme). Eles moram em uma casa isolada, perto de um bosque, que foi destruída por um incêndio e reconstruída cômodo a cômodo graças ao esforço dela.

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O fenômeno IT – A Coisa: o medo em seu estado mais primitivo

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O palhaço Pennywise está de volta em IT – A Coisa

O novo IT – A Coisa, adaptação do livro que Stephen King escreveu em 1986, funciona mais como aventura juvenil do que como filme de terror. A gente assusta, sim, mas a graça está mais na cumplicidade de uma turma de amigos rejeitada pelos colegas de classe. É aquela sensação que nos dá ao assistir, por exemplo, à série Stranger Things ou ao longa Super 8. Spielberg explora muito bem esse clima ao retratar em alguns de seus trabalhos jovens nerds desajustados e incompreendidos. Nos identificamos facilmente (e torcemos) pelos personagens porque são vítimas de um sistema adulto sacana.

O medo é o grande tema do filme. Ele dá força ao palhaço macabro Pennywise — quanto mais suas vítimas temem, mais ele se fortalece — e torna-se um desafio a ser superado ao longo da projeção. O medo também está dentro de casa, na relação doméstica. O pai de Beverlly (interpretada pela atriz Sophia Lillis), por exemplo, exige a pureza da filha ao mesmo tempo em que lança olhares lascivos para ela. Já a mãe de Eddie (Jack Dylan) protege tanto o filho que acaba fazendo dele um fracote com mania de doenças.

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Nesse sentido, o mérito da história vai mais para quem a criou, o mestre do terror de entretenimento Stephen King. O autor ajudou, em boa parte, com a reação dupla, entre o engraçado e o macabro, que temos quando estamos diante de um palhaço. No filme, Pennywise (um trabalho muito bom do ator Bill Skarsgard) assusta com seu olhar de louco, a voz suave e rouca, os dentes de tubarão e os movimentos cômicos e sinistros em um corpo possuído. Mais possuído que o Bozo depois de cheirar uma carreira (também em cartaz no filme Bingo).

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The Night Of ou quando o sistema te engole e você vira um monstro

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Nasir: o ator de origem paquistanesa Riz Ahmed

Comentar, nos tempos céleres atuais, sobre uma série do ano passado é quase como falar de um filme mudo dos primórdios do cinema. Mesmo assim, vou ser antiquado e dar meus pitacos a respeito de The Night of. Afinal, a regra é simples: gostei e quero falar bem de uma série legal no espaço que eu criei basicamente para mim mesmo.

Não que seja genial no sentido de reinventar a roda, mas é muito bem-feita e gostosa de assistir. Para quem gosta, claro, de suspense, histórias de tribunal e dramas prisionais. Um dos criadores de The Night of é o escritor e roteirista Richard Price, um cara que olha para a periferia dos EUA, retratando imigrantes e párias da sociedade, e extrai dali histórias e diálogos sensacionais. Leia Vida Vadia, livro de sua autoria que se passa no submundo de Nova York. Recomendo!

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Parte desse ambiente é o pano de fundo da série da HBO que foi ao ar em 2016. Nasir Khan é um jovem de 20 e poucos anos, de origem paquistanesa, que tem a cara e o jeito do bom moço. Assim começa a trama. Ele é convidado por amigos a uma festa que promete. Pega o táxi do pai sem pedir permissão, esquiva-se da mãe ao sair de casa e mergulha na noite de Nova York.

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Andrea Cornish (Sofia Black-D’Elia) em cena da série The Night Of

Ao passear com Nasir dentro do carro, com a câmera espiando os retrovisores, impossível não pensar em Taxi Driver, de Martin Scorsese, nas ruas esfumaçadas percorridas por Travis (Robert De Niro) como se fossem o caminho para o inferno. Como Nasir não sabe como desligar o sinal de táxi em operação, passageiros sinalizam e entram no carro. Ele expulsa dois deles, explicando que não está disponível para corridas. Entra, então, uma mulher e senta no banco traseiro. Diz que quer ir para a praia. Praia em Nova York, ele pensa?

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Calma, Shyamalan, não vai cair na mesma cilada de sempre

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James McAvoy em “Fragmentado”, novo filme de M. Night Shyamalan

M. Night Shyamalan deve lutar contra um estigma dentro de si. Depois do sucesso precoce de O Sexto Sentido, que ele dirigiu quando tinha 29 anos, todo mundo espera algo genial vindo dele (uma reviravolta, uma surpresa à altura de “I see dead people…”). O pior é que ele parece aceitar esse desafio e muitas vezes, na ânsia de elaborar um roteiro mirabolante, as coisas acabam desandando. Calma, Shyamalan, cuidado com essa cilada!

O que vejo de genial, no entanto, neste cineasta indiano que no começo da carreira era tratado como discípulo de Hitchcock é o fato de trabalhar cenas e imagens com o zelo de um costureiro, amarrando as sequências com habilidade e movendo a câmera sempre com um propósito. Menos por ser o “rei do twist”. Quanto à habilidade visual, por outro lado, Shyamalan continua sendo um dos melhores.

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Aí entrei na sala de cinema para ver Fragmentado, seu novo filme que tem dividido opiniões (tenho amigos que amaram e outros que detestaram). Eu não amei, mas gostei justamente pelo que escrevi no parágrafo anterior: Shyamalan é mestre na composição de cenas, trata a câmera como uma ferramenta para hipnotizar o espectador. E consegue.

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Para ver no NOW: Creepy, do mestre japonês Kiyoshi Kurosawa

Yasuko (a atriz Yûko Takeuchi) contracena com Nishino (Teruyuki Kagawa) em "Creepy"
Yasuko (Yûko Takeuchi) contracena com Nishino (Teruyuki Kagawa) em “Creepy”

Não sei se Creepy, do japonês Kiyoshi Kurosawa, passou pelos cinemas do Brasil, mas está disponível para ser visto no NOW, o serviço de streaming da NET. Se estiver de bobeira aí, é um belo programa. Recomendo.

É um filme de horror que faz ótimo uso do suspense para prender o espectador. Kurosawa é um diretor tão habilidoso e paciente que passeia com êxito por diversos gêneros. Já fez drama (Sonata de Tóquio), ficção científica (Real) e filmes para TV sobre mafiosos japoneses, mas é no horror que ele se torna genial.

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Antes de Creepy, lançado em 2016, ele ganhou notabilidade como diretor de produções como A Cura (1997) e Kairo (2001), entre outras.

O que mais se destaca no cinema de Kurosawa é a construção de um clima que, além dos atores, tem papel fundamental no desenvolvimento da história. Normalmente, ele elabora os roteiros sem descrição de cenas e explora as locações no momento da filmagem. Assim, ele se deixa surpreender pelo que encontra no caminho e inclui na trama uma espécie de alma do lugar onde se passa a história.

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Crítica: Invocação do Mal 2 usa artimanhas desgastadas

A pequena Janet Hodgson (Madison Wolfe) em "Invocação do Mal 2"
A pequena Janet Hodgson (Madison Wolfe) em “Invocação do Mal 2”

Escrevi sobre a sequência de Invocação do Mal para a Folha de S.Paulo. Um trecho do que eu achei: Apesar de garantir sustos, usando à exaustão a combinação de aparições fantasmagóricas em segundo plano e ruídos estridentes, quase tudo soa ultrapassado: o balanço que range no quintal, a garotinha com voz demoníaca, as cruzes invertidas, a Bíblia rasgada… Já vimos isso antes, certo? Para ler a crítica completa, clique aqui.

Crítica de Demon: um filme polonês de possessão cheio de graça

A noiva à espera do amado possuído em Demon
A noiva à espera do amado possuído em Demon

Escrevi uma crítica sobre o bom filme polonês Demon, do diretor Marcin Wrona, para a Folha de S.Paulo na semana passada. Continua em cartaz, pelo menos em São Paulo, e merece ser visto. O filme estreia depois da trágica morte de Wrona, que se enforcou no ano passado, aos 42 anos, momentos antes de seu terceiro longa-metragem ser exibido no Gdynia Film Festival, na Polônia. Era um dos nomes mais interessantes do cinema polonês atual. Demon mostra as preparações e a cerimônia de um casamento maluco, numa zona rural da Polônia, no qual os convidados bebem vodca sem parar e o noivo é possuído por um demônio do folclore judeu. Não espere sustos fáceis, tampouco cenas de exorcismo comuns em filmes de possessão, mas um clima intrigante e uma atuação vigorosa do ator Itay Tiran.

Leia a crítica completa no site da Folha, clicando aqui.