Terror nacional com Fagundes e Sandy (ela mesma) é boa surpresa

Marco Dutra, diretor do filme “Quando Eu Era Vivo”, é um nome para ficar de olho. Ele é um dos integrantes da produtora paulista Filmes do Caixote, que trabalha como se fosse uma cooperativa, sendo que, enquanto um cuida do roteiro, o outro fica encarregado da fotografia ou faz a montagem. A galera se reveza nessas tarefas, sempre na ativa com orçamentos apertados.

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“Quando Eu Era Vivo” é diferente de tudo o que eu já vi no cinema nacional. Para começar: se trata de um filme de horror, gênero esquecido por aqui. Fora isso, é um filme de terror que não repete o estilo de Zé do Caixão ou o “terrir” de Ivan Cardoso. É mais sutil, mas não menos assustador, além de ser um ótimo objeto de estudo para colocar no divã. Retrata as relações familiares de uma maneira escabrosa, exagerando traumas e ódios.

O que me chamou a atenção, no entanto, foi a forma encontrada por Dutra de personificar a casa no filme (no caso, um apartamento), dando a ela o papel de protagonista, até mais proeminente do que os atores. É o local onde mora Sênior (Antônio Fagundes, bem num papel incomum) com a sua inquilina Bruna (Sandy, ela mesma). O filme começa mostrando a chegada de Júnior (Marat Descartes), filho de Sênior, a essa casa. Uma aproximação que poderia ser a do agente imobiliário Hutter à mansão fantasmagórica do conde Orlock em “Nosferatu” (1922), de Murnau.

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O pai o recebe desconfiado, sem muito entusiasmo. O ator Marat Descartes faz um ótimo trabalho com o olhar para dar a seu personagem um ar de insanidade, à la Jack Nicholson em “O Iluminado”. Sênior quer ajudar o filho, arruma o sofá para ele dormir, oferece comida, mas não deixa de fazer seus exercícios regulares: correr na esteira que fica na sala do apartamento e levantar pesos. Assim como apresenta os personagens, Dutra também introduz ao espectador detalhes da casa, a decoração simples, as janelas, como se mostrasse membros de um ser humano.

Sandy interpreta uma estudante de música (se não for pelo apelo comercial de ter um rosto conhecido no elenco a escolha não se justifica) que se tornará a interlocutora de Júnior. Há muitos segredos escondidos em fitas de vídeo que revelam o passado da família: a mãe, já morta, tinha ligações com o ocultismo e o irmão de Júnior, ainda vivo, foi internado por causa de problemas mentais.

À medida que os dias passam, Júnior exuma de armários e cômodos pertences da mãe e do irmão: pinturas, folhas, objetos de decoração e uma misteriosa partitura. Assim como no conto de Cortázar, a casa é tomada e ganha ares sobrenaturais. Dutra dá ênfase a essa transformação ao fechar a câmera em bichos, bonecos de pelúcia e quadros que passam a habitar a casa. Sênior, numa espécie de rota de fuga do ambiente opressor, busca refúgio na vizinha.

A história mal resolvida entre dois irmãos oprimidos no seio familiar, também presente no texto de Cortázar e no conto “A Queda da Casa de Usher”, de Edgar Alan Poe (nos quais há indícios de uma relação incestuosa), é um interessante ponto a ser notado.

“Quando Eu Era Vivo” assusta e faz pensar. “A Cruz e a Empada” recomenda.

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