Clássico japonês ‘Godzilla’ faz 60 anos e reestreia nos EUA

O filme “Godzilla” (Gojira em japonês) foi lançado em 1954 no Japão, nove anos após a tragédia nuclear de Hiroshima e Nagasaki, ao fim da Segunda Guerra Mundial. O diretor, Ishiro Honda, guardou na memória a devastação causada pela explosão da bomba durante uma visita a Nagasaki. Desde então, gostaria de retratar esse cenário de terror em um de seus filmes.

Cena da versão japonesa do filme "Godzilla", de 1954
Cena da versão japonesa do filme “Godzilla”, de 1954

Com o suporte da produtora Toho, filmou “Godzilla”, o primeiro filme que apresenta ao público a criatura gigantesca que emerge dos mares para destruir tudo o que vem pela frente. Hoje, os efeitos toscos e a mobilidade canhestra do bichano podem parecer infantis, mas é inegável a importância da obra no sentido de inaugurar um gênero próprio (os filmes de monstro) e de crítica aos ataques e testes nucleares americanos.

“Godzilla” é claro na sua metáfora: questiona de maneira criativa a corrida nuclear do pós-Guerra ao mesmo tempo em que alardeia uma mensagem pacifista ao mundo. O desfecho é direto nesse sentido: após Gojira ser aniquilado, o cientista interpretado por Takashi Shimura diz que novos monstros aterrorizantes vão surgir caso as experiências nucleares não sejam interrompidas.

Cena da versão japonesa do filme "Godzilla", de 1954
Cena da versão japonesa do filme “Godzilla”, de 1954

Tocados por uma sensação de temor e, talvez, pelo sentimento de injustiça, os japoneses foram em peso aos cinemas. O filme foi um sucesso de público e, no lançamento em 1954, ficou à frente de “Os Sete Samurais”, uma das obras-primas de Kurosawa.

A produtora Toho logo percebeu o grau de satisfação da plateia e emendou uma sequência atrás da outra, tendo a criatura como protagonista; aos poucos, deixando de ser tão maligna e ganhando um caráter heroico de defesa da humanidade. Foram mais de 30 sequências desde o original, sem contar as adaptações mundo afora.

Estátua do Godzilla em frente aos estúdios da Toho, criadora do monstro
Estátua do Godzilla em frente aos estúdios da Toho, criadora do monstro

Mesmo sendo o alvo da discórdia, os EUA, sempre de olho no poder de espetáculo de um evento, levou a história de Honda ao Ocidente. Com novo nome, “Godzilla – O Rei dos Monstros”, a versão americana estreou dois anos depois, em 1956. Com muitas ressalvas, no entanto. A trama chegou cortada em mais de 20 minutos, sendo que a Columbia Pictures teve o cuidado de eliminar as cenas que traziam mensagens antiamericanas. E mais, deu um jeito de encaixar um ator americano (Raymond Burr) na história, personagem inexistente na versão original. Burr interpreta um jornalista americano baseado em Tóquio.

Esse clássico do terror/ficção científica, sobre uma população acuada pela aparição de um monstro destruidor, retorna às telonas dos EUA em abril, em cópia original (a japonesa) restaurada pela Rialto Pictures. Em 16 de maio deste ano, estreia a nova versão de “Godzilla” da Warner, dirigida por Gareth Edwards.

Terror nacional com Fagundes e Sandy (ela mesma) é boa surpresa

Marco Dutra, diretor do filme “Quando Eu Era Vivo”, é um nome para ficar de olho. Ele é um dos integrantes da produtora paulista Filmes do Caixote, que trabalha como se fosse uma cooperativa, sendo que, enquanto um cuida do roteiro, o outro fica encarregado da fotografia ou faz a montagem. A galera se reveza nessas tarefas, sempre na ativa com orçamentos apertados.

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“Quando Eu Era Vivo” é diferente de tudo o que eu já vi no cinema nacional. Para começar: se trata de um filme de horror, gênero esquecido por aqui. Fora isso, é um filme de terror que não repete o estilo de Zé do Caixão ou o “terrir” de Ivan Cardoso. É mais sutil, mas não menos assustador, além de ser um ótimo objeto de estudo para colocar no divã. Retrata as relações familiares de uma maneira escabrosa, exagerando traumas e ódios.

O que me chamou a atenção, no entanto, foi a forma encontrada por Dutra de personificar a casa no filme (no caso, um apartamento), dando a ela o papel de protagonista, até mais proeminente do que os atores. É o local onde mora Sênior (Antônio Fagundes, bem num papel incomum) com a sua inquilina Bruna (Sandy, ela mesma). O filme começa mostrando a chegada de Júnior (Marat Descartes), filho de Sênior, a essa casa. Uma aproximação que poderia ser a do agente imobiliário Hutter à mansão fantasmagórica do conde Orlock em “Nosferatu” (1922), de Murnau.

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O pai o recebe desconfiado, sem muito entusiasmo. O ator Marat Descartes faz um ótimo trabalho com o olhar para dar a seu personagem um ar de insanidade, à la Jack Nicholson em “O Iluminado”. Sênior quer ajudar o filho, arruma o sofá para ele dormir, oferece comida, mas não deixa de fazer seus exercícios regulares: correr na esteira que fica na sala do apartamento e levantar pesos. Assim como apresenta os personagens, Dutra também introduz ao espectador detalhes da casa, a decoração simples, as janelas, como se mostrasse membros de um ser humano.

Sandy interpreta uma estudante de música (se não for pelo apelo comercial de ter um rosto conhecido no elenco a escolha não se justifica) que se tornará a interlocutora de Júnior. Há muitos segredos escondidos em fitas de vídeo que revelam o passado da família: a mãe, já morta, tinha ligações com o ocultismo e o irmão de Júnior, ainda vivo, foi internado por causa de problemas mentais.

À medida que os dias passam, Júnior exuma de armários e cômodos pertences da mãe e do irmão: pinturas, folhas, objetos de decoração e uma misteriosa partitura. Assim como no conto de Cortázar, a casa é tomada e ganha ares sobrenaturais. Dutra dá ênfase a essa transformação ao fechar a câmera em bichos, bonecos de pelúcia e quadros que passam a habitar a casa. Sênior, numa espécie de rota de fuga do ambiente opressor, busca refúgio na vizinha.

A história mal resolvida entre dois irmãos oprimidos no seio familiar, também presente no texto de Cortázar e no conto “A Queda da Casa de Usher”, de Edgar Alan Poe (nos quais há indícios de uma relação incestuosa), é um interessante ponto a ser notado.

“Quando Eu Era Vivo” assusta e faz pensar. “A Cruz e a Empada” recomenda.

Festival da Apple levou metaleiros a uma fazenda nos anos 1980

O US Festival, que teve apenas duas edições, em 1982 e 1983, pode ser classificado como o melhor-festival-que-você-nunca-ouviu-falar. Precursor dos gigantes Coachella e Lollapalooza, o evento idealizado por Steve Wozniak, criador da Apple ao lado de Steve Jobs, ajudou a colocar o heavy metal no centro das discussões musicais.

A edição de 1983, que é a que nos interessa aqui, levou mais de 700 mil pessoas a um local ermo perto de San Bernardino, na Califórnia. O clima tinha algo de Woodstock, mas sem lama. Destoando também do lendário festival dos anos 1960, o US abrigou estandes com novidades tecnológicas, como computadores e videogames.

Foram 4 dias de shows, divididos por gênero musical. No primeiro, um sábado, tocaram sob o rótulo de new wave bandas como INXS, Men at Work e The Clash. Na segunda, foi a vez do rock, com destaque para nomes que já apareciam no topo das paradas como U2 e David Bowie. Willie Nelson comandou o dia country.

O heavy metal ficou para o domingo e surpreendeu os organizadores da festa ao atrair o maior público dos quatro dias. Subiram ao palco num calor de mais de 30 graus as bandas Quiet Riot, Mötley Crüe, Triumph, Ozzy Osbourne, Judas Priest, Scorpions e Van Halen, nessa ordem de entrada, a partir do meio-dia. Mesmo suando, a maioria não abandonou o figurino de praxe: calças de couro, jaquetas com espetos e pregos de metal e camisetas pretas.

Abalado pela morte de seu guitarrista, Randy Rhoads, num acidente de avião durante a turnê de Diary of a Madman em março de 1982, o mago do metal Ozzy mostrou-se aos fãs de fato como um feiticeiro-meio-caubói, com chapéu, e tocou hinos do Black Sabbath, a exemplo de “Paranoid”, e canções de sua carreira solo. Ozzy havia lançado, após deixar o Sabbath, os discos “Blizzard of Ozz” e “Diary of a Madman”. Já tinha no repertório hits como “Crazy Train” e “Mr Crowley”.

Os britânicos do Judas Priest, cujo vocalista, Rob Halford, entrou de moto no palco, atravessando uma parede de amplificadores, botaram fogo na plateia com músicas como “Breaking the Law” e “You´ve Got Another Thing Comin”. Mais tarde, Halford reconheceria esse momento como o ponto alto da turnê “Screaming for Vengeance”.

Com uma apresentação devastadora comandada pelo vocalista David Lee Roth, o Van Halen fechou a noite. Foi a banda que recebeu o cachê mais alto do festival, 1,5 milhão de dólares, depois de o empresário exigir um cachê maior que o de David Bowie em uma das cláusulas do contrato. Num dos momentos mais engraçados, Lee Roth pediu uma garrafa de uísque e soltou: “Aqui tem uísque de verdade, as únicas pessoas que colocam Iced Tea no Jack Daniels são os caras do Clash, baby“.

A estrutura megalomaníaca do festival custou caro a Wozniak, que amargou um prejuízo de 10 milhões de dólares somente na edição de 1983.