Onde estão os filmes de terror nacionais?

É triste pensar que na nossa cinematografia os filmes de horror são tão raros. Fala-se apenas em Zé do Caixão, e o assunto morre aí mesmo. Fiz um exercício pessoal a fim de tentar lembrar qual foi o último longa de terror brasileiro que eu vi. Lembrei então de “Fronteira”, do mineiro Rafael Conde. Imagino que pouquíssimas pessoas tenham visto. Mas chegou a ficar em cartaz por algumas semanas no finado Belas Artes (graças à benevolência de André Sturm), um dos últimos cinemas de rua de São Paulo que resistiram à invasão dos blockbusters.

FRONTEIRA Alexandre Cioletti - foto Bianca Aun

Mas, enfim, o filme de Conde é de 2008. E é bom pra caralho, dá para baixar ou pegar na locadora. Adaptação da obra do maldito Cornélio Penna, escritor de Petrópolis que morreu nos anos 1950. O que importa é a atmosfera que o diretor consegue criar nos casarões do interior de Minas, onde um viajante encontra uma garota que vive presa no quarto. Dizem que ela é santa.

FRONTEIRA Berta Zemel  - foto Bianca Aun

Numa entrevista que fiz com Conde para a revista Trópico (http://www.revistatropico.com.br/tropico/html/textos/3041,1.shl), ele diz que “o livro é narrado em primeira pessoa e na teoria era para o leitor entender melhor o protagonista, o que não acontece. Ele não dá pista; uma hora é profano e fala de pecado, em outra se comporta como seminarista. É algo muito confuso. O próprio Cornélio era uma figura muito esquisita. Ele morreu de câncer, e não deixava ninguém examinar seu corpo”.

Coloco o trailer do filme abaixo para entrar no clima:

5 cenas antológicas do terror

NOSFERATU (1922), de F. W. Murnau

Este clássico de Murnau tem o poder de reproduzir o clima assustador e decadente do período entreguerras (um representante do expressionismo alemão) e será sempre lembrado como o primeiro grande filme de vampiro. Apesar de não ser uma adaptação legítima, a história é toda baseada no “Drácula”, de Bram Stocker. Murnau roubou a história na cara dura, depois teve problemas na justiça. Aqui, a criatura interpretada por Max Schreck é um doente grotesco, careca, com orelhas de morcego e dentes de coelho. Longe de ser uma figura sedutora e atraente. Nesta cena, sua famosa sombra aparece invadindo o quarto da mulher de Hutter, enviado a Transilvânia para vender uma propriedade ao conde Orlok.

 

O EXORCISTA (1973), de William Friedkin

Tudo o que veio depois de 1973 sobre garotas indefesas possuídas pelo demônio é cópia deste clássico de Friedkin, em que a atriz Linda Blair blasfema, vomita um jato verde, masturba-se com um crucifixo, levita e desce a escada como uma aranha alucinada. A história foi inspirada num caso real de exorcismo nos EUA em 1949. Até o cartaz é um primor, com um jogo sinistro de claro e escuro cujo propósito é anunciar que algo terrível está para acontecer. Entre tantas cenas antológicas escolhi a que Blair gira o pescoço em 360º.

 

SUSPIRIA (1977), de Dario Argento

Depois de Mario Bava, o italiano Dario Argento é sem dúvida o nome mais importante do horror naquele país. Faz um cinema estilizado, extravagante e explora o caráter sobrenatural dos sonhos. Merece o título de um dos pais do cinema giallo (tramas associadas a uma série de assassinatos). “Suspiria” é seu filme mais famoso. Dá para experimentar o universo do cineasta na cena abaixo. Atenção para os gestos coreografados e para a insana música da banda de rock progressivo Goblin (gritos, sintetizadores, sussurros…)

 

SCANNERS (1981), de David Cronenberg

O mais legal de ver os filmes do canadense Cronenberg é perceber a sua obsessão pela mutação do corpo humano, como um membro pode virar uma máquina e como a mente tem o poder de degenerar as pessoas. É um dos cineastas mais sofisticados do horror. Transforma a psicologia em imagens como poucos. “Scanners” não é o seu melhor filme, mas a cena em que o telecinético Revok causa a explosão de uma cabeça num auditório é fenomenal.

 

O SILÊNCIO DOS INOCENTES (1991), de Jonathan Demme

Tem o mérito inquestionável de ser o único filme de terror a ganhar o Oscar de melhor filme. Pensando nos velhinhos conservadores que formam a Academia, é de tirar o chapéu. Aqui, Jodie Foster faz uma agente que precisa da ajuda de um psiquiatra canibal (Hopkins) para entender a mente de um assassino. Demme trabalhou com Roger Corman (o mestre do filme B) no começo da carreira. Na cena a seguir, Dr. Lecter morde um policial na cela, lambuza a boca de sangue e escapa da prisão.